"Desde mi punto de vista –y esto puede ser algo profético y paradójico a la vez– Estados Unidos está mucho peor que América Latina. Porque Estados Unidos tiene una solución, pero en mi opinión, es una mala solución, tanto para ellos como para el mundo en general. En cambio, en América Latina no hay soluciones, sólo problemas; pero por más doloroso que sea, es mejor tener problemas que tener una mala solución para el futuro de la historia."

Ignácio Ellacuría


O que iremos fazer hoje, Cérebro?

sábado, 4 de abril de 2009

Brasil não é nem vira-lata nem rottweiler

São Paulo, sábado, 04 de abril de 2009

ANÁLISE/G20
Brasil não é nem vira-lata nem rottweiler

País não depende de afago de Obama ou de quem quer que seja para se sentir importante, mas também não tem a vocação de ferocidade indispensável para comandar a matilha


CLÓVIS ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A LONDRES
Se estivesse vivo, Nélson Rodrigues babaria de ódio ao ver que o complexo de vira-lata que ele atribuía aos brasileiros saiu em bloco aos salões depois que o presidente Barack Obama saudou Luiz Inácio Lula da Silva como "my man" e o apontou como o presidente mais popular do mundo. O tratamento dado ao episódio por uma parte da mídia passa a impressão de que Lula só se tornou popular porque Obama disse que Lula é popular -e os microfones da BBC pegaram.
Mais fantástica é a ideia de que Obama ungiu, com o gesto, o novo líder global, na figura de Lula.
O próprio Lula, na entrevista coletiva que concedeu horas depois do episódio, pôs as coisas no seu devido e correto contexto:
1) Foi uma "brincadeira", brincadeira facilitada pelo fato de que Lula "trata as pessoas muito bem" e vê os presidentes como "companheiros" tanto ou mais do que como presidentes.
É fato. Lula é cordial com todos, de direita e de esquerda, ricos e pobres, a ponto de ter conseguido a proeza de ser chamado de "meu amigo" por George Walker Bush e de "my man" por seu antípoda Barack Obama.
2) Essa história de liderança é "uma bobagem teórica", sempre segundo Lula, para quem "todos [os países] querem ser líderes e ninguém passa o bastão para ninguém". Bingo.
Contexto explicado diretamente pelo personagem central da história, convém deixar claro que Lula é, sim, uma personalidade mundial, uma espécie de pop star, antes e acima de tudo por sua história de vida.
De alguma forma, é até melhor que a de Obama, cuja eleição causou tanta excitação no planeta. Afinal, Obama tem diploma universitário -e de universidade de grife-, exigência não escrita para ser presidente em qualquer lugar do mundo. Lula não tem, mas seu governo não passa vergonha diante dos doutores que o antecederam (aliás, escrevi algo parecido muito antes de Lula se eleger ou de ter chances reais de ganhar).
O prestígio de Lula se deve também a ter se convertido ao credo hegemônico no planeta. Só é aceito nos salões do homem branco e de olhos azuis porque assina textos como o do G20 que diz: "A única base segura para uma globalização sustentável e crescente prosperidade para todos é uma economia aberta baseada em princípios de mercado, regulação efetiva e instituições globais fortes".
O venezuelano Hugo Chávez não assinaria algo parecido. Não é convidado para os salões que Lula frequenta, mas Lula é convidado para os salões que Chávez frequenta porque não tem preconceitos ideológicos. Nem cria caso.
Popularidade e aceitação não se confundem, no entanto, com liderança. Para ficar apenas no âmbito do G20, o próprio Lula disse que, em seu discurso aos "companheiros" presidentes, apenas pedira que os países ricos resolvessem a sua crise.
Não ofereceu, portanto, nenhuma luz, não abriu caminhos que os outros devessem seguir, como fazem os líderes.
Mesmo o Barack Obama que o tratou como "my man", no exercício de humildade que foi a sua entrevista coletiva após a cúpula do G20, não citou o Brasil entre as potências que estão surgindo ou se consolidando. Mas citou a Europa, a China e a Índia.
Nem é culpa de Lula, no caso. É culpa do país que ele representa, ainda pobre, além de profundamente desigual.
O Brasil é o quinto mais pobre do G20, à frente apenas de China, Índia, Indonésia e África do Sul.
Não quer dizer, no entanto, que o papel do Brasil seja irrelevante ou secundário. Ao contrário, foi ativíssimo, ainda mais pela coincidência de ter sido o presidente de turno do G20 até o ano passado. Por isso, os grupos de trabalho criados após a cúpula de Washington para preparar a de Londres foram comandados pela "troika": os co-presidentes eram um brasileiro, um sul-coreano, que terá a presidência no ano que vem, e um britânico, que preside o conglomerado em 2009.
Posições brasileiras
De modo geral, aliás, as posições brasileiras acabaram contempladas no texto final: mais regulação/supervisão, enfrentamento dos paraísos fiscais, mais recursos para o FMI -todas essas eram posições brasileiras. Mas foram também empurradas por grandes potências (França e Alemanha, em especial, no caso da regulação e dos paraísos fiscais).
Nem entre os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China, as potências mundiais até 2050, segundo uma empresa de investimentos) o Brasil consegue impor posições. Na véspera da reunião de ministros da Fazenda e presidentes de bancos centrais do G20, há três semanas, o ministro Guido Mantega defendeu, em encontro dos Brics, que o grupo deveria apoiar a estatização dos bancos. A tese foi derrotada e não apareceu nem no documento dos Brics nem nos textos finais dos ministros nem dos chefes de governo.
Tudo somado, fica claro que o Brasil não é mais vira-lata e, portanto, não depende de um afago de Obama ou de quem quer que seja para se sentir importante, mas também não é um rottweiler -nem tem a vocação de ferocidade indispensável para comandar a matilha.


CLÓVIS ROSSI , colunista da Folha , cobre viagens presidenciais ao exterior desde que o general Ernesto Geisel visitou França e Inglaterra em 1976, há 33 anos, portanto.

Um comentário:

Cauê Mendonça Cardoso disse...

Vamos resumir o Sr.Rossi... Ao defender que Lula conquistou um certo reconhecimento maior do que alguns predecessores (afirmar o que seus colegas dos demais jornais mundiais afirmariam como óbvio) ele tirou um pouco de peso da brincadeira de Obama. Assim, por começar afirmando um fato apontado por grandes maiorias ele conquista um contexto: "veja, estou falando de fatos e sou impessoal."; Coisa aliás, que nenhum jornalista é capaz de ser por excelência da profissão. Por conseguinte diz que Lula não é de esquerda ao afirmar que o Presidente assina documentos com valores inteiramente liberais, enquanto o Hugo Chávez não assinaria. Enfatiza, da mesma maneira, que Lula é convidado para as reuniões da "verdadeira esquerda" porque não cria caso, conversa com todos. Talvez a unica informação profissional do jornalista, dita nas entrelinhas e não propositalmente, tenha sido relacionar os fatores limitantes do país com suas questões domésticas e enraizadas. Ou seja, é costumeiro da oposição exigir: "já que ele está fazendo isso que conquiste os maiores louros", claro, pois é uma desmoralização usando o senso comum da mídia. Todos sabem que o Brasil não tem condições e não seria possível ter em 8 anos, ou mesmo em 15, o poder e a importância econômica e estrutural de chegar e definir agendas com Rússia, EUA, Inglaterra e China e nem ao menos eles conseguem entre eles. Sempre na base de acordos e concessões. Ou seja, a utilidade da reportagem está apenas em lembrar ao povo que nós precisamos acompanhar domesticamente as conquistas externas. Para isso precisamos largar o tradicionalismo e deixar de sermos mentalmente vira-latas.