"Desde mi punto de vista –y esto puede ser algo profético y paradójico a la vez– Estados Unidos está mucho peor que América Latina. Porque Estados Unidos tiene una solución, pero en mi opinión, es una mala solución, tanto para ellos como para el mundo en general. En cambio, en América Latina no hay soluciones, sólo problemas; pero por más doloroso que sea, es mejor tener problemas que tener una mala solución para el futuro de la historia."

Ignácio Ellacuría


O que iremos fazer hoje, Cérebro?

sábado, 16 de junho de 2007

Quem cursa relações internacionais está condenado a ficar desempregado?

Esta semana dois alunos me procuraram para conversar sobre o curso de relações internacionais angustiados com as perspectivas de futuro.
É verdade o curso de relações internacionais não permite uma identificação clara de qual é a atividade a ser exercida após a conclusão do curso. Num curso de relações internacionais stricto sensu, seguindo o currículo padrão das universidades do exterior e o que se pratica na UnB, os alunos irão estudar basicamente política e economia política, um estudo centrado no Estado. Em tese, estaríamos formando diplomatas, mas obviamente não é verdade, a maior parte dos que se graduam em relações internacionais não irão trabalhar para o Estado nem no Brasil nem no exterior. Num país como EUA e ou nos países europeus, há uma grande divisão do trabalho que faz com que dentro das empresas haja espaço para analistas políticos de diferentes espécies, então os profissionais graduados em relações internacionais podem encontrar emprego fora do Estado, mas em atividades, setores que se relacionam com o Estado. E no Brasil? No Brasil não há essa divisão do trabalho, então torna-se mais difícil encontrar empregos no setor privado em atividades relacionadas com o Estado. Mas isto quer dizer que os profissionais de relações internacionais ficarão desempregados mais do que outros profissionais? Terão mais dificuldade para encontrar emprego? Certamente terão mais dificuldade para encontrar nos classificados dos jornais o nome do seu curso, mas não é verdade que terão mais dificuldade para encontrar emprego. Os graduados em todos os cursos enfrentam dificuldades.
Os graduados em administração trabalham em quê? Os graduados em direito? Os graduados em economia? Os graduados em sociologia? Os graduados filosofia? Os graduados em psicologia? Por exemplo, há algum tempo peguei um texto (e apesar de detestar ficar conversando com o taxista) fiquei sabendo que ele era formado em psicologia, tinha trabalhado durante anos em uma empresa como psicólogo, mas havia abandonado a profissão e se tornado taxista pelas circunstâncias. Se todos os administradores fossem administrar empresa, acho que faltaria empresa neste país, quantos caixas de banco estudam administração? Quantos chegaram a gerente? Quantos serão a vida inteira caixas? Quantas empresas no Brasil contrata economistas por serem economistas e aquela atividade só poder ser exercida por economista segundo o CFE? Que atividade no Brasil é efetivamente exclusiva de administrador? Nem todo economista trabalha com economia, nem todo administrador administra. E os filósofos? Quem contrata filósofos? Quantos filósofos temos no Brasil trabalhando como filosofia? Alguém conhece alguém que contrata sociólogos ou alguma atividade exclusiva de sociólogos? E os milhares de coitados que se graduam em Direito, quantos conseguem ser aprovados na prova da OAB? A minoria, ou seja, mais de 70% dos graduados em direito jamais serão advogados ou qualquer outra coisa relacionada ao direito, exceto assistente em algum escritório advocatício, atividade que poderia ser exercida por qualquer outro profissional. E esta é a questão, o mercado de trabalho é mais complexo do que a doutrina que diz que quem se qualifica encontra emprego diz. Vejamos:
1. nem sempre o chefe é o mais qualificado da empresa. Há várias pessoas que identificam como principal problema no seu emprego o fato do chefe ser menos qualificado, isso significa que nem sempre e nem todo empresa leva em consideração as "qualificações acadêmicas" na promoção dentro da carreira, mas o desempenho do funcionário dentro da empresa, tanto do ponto de vista técnico, pessoal, quanto político.
2. o mercado de trabalho é bastante estratificado. Os empregos de maior salário são de alta especialização. Quem acha que cursar ciência da computação garante um bom emprego se equivoca, é preciso se diferenciar, dominar tecnologias que poucos no mercado de trabalho domina. Do mesmo modo, quem faz relações internacionais e acha que inglês ou espanhol irá fazer diferença no mercado se equivoca, ele será jogado na massa, se quiser se diferenciar no mercado de trabalho de consultoria internacional tem que dominar línguas de domínio restrito como chinês, russo, finlandês, etc., que permita a entrada numa mercado de concorrência imperfeita, como poucos estão neste mercado o ganho é maior. O economista precisa de qualificações, o psicólogo, etc. Para que estes profissionais precisam destas qualificações para ficar no mercado de bacharéis de relações internacionais, de administradores, de economistas, de sociólogos, etc.
3. Quem não tem especializações, qualificações extra que permitam uma profunda diferenciação da massa ocupa o mesmo mercado de trabalho. Ou seja, graduados em RI, em economia, em administração, etc. ocupam o mesmo lugar no mercado de trabalho e disputam as mesmas vagas. Neste mercado de trabalho de massa, a graduação fez pouca diferença desde que o indivíduo consiga exercer as funções que a empresa demanda. De fato neste mercado, graduação só é efetivamente lembrada no momento de contratar estagiários e trainees porque a lei assim exige.
4. Então, a qualidade mais necessária fora do mercado altamente especializado é a flexibilidade, a capacidade de mudar de função, de se adaptar a diferentes atividades. E obviamente, que quando se fala de flexibilidade está se falando de atividades de nível médio na empresa, na base não há espaço para flexibilidade. Mas como a expectativa é que quem se gradue em RI não seja o operário, então o curso de RI pode proporcionar uma vantagem que é o desenvolvimento da capacidade de pensar que permite que o profissional tenha flexibilidade. Não se deve subestimar a importância desta vantagem a maioria das pessoas jamais pensaram, os pensamentos entram na cabeça delas, porque elas nem são sábias para serem capazes de silenciarem os pensamentos, nem são intelectualmente desenvolvidas para pensar os próprios pensamentos.l Então vivem a rotina de repetir o pensamento alheio e repetir procedimentos, qualquer um que rompa com isso consegue vantagens no mercado de trabalho e qualquer outro lugar. O curso de RI contribui para isso.
5. Concluindo, apenas uns poucos, os melhores, os que estudarem mais atuarão na área específica do curso, e ainda assim precisarão se especializar além do que qualquer curso de graduação pode proporcionar. Vale para relações internacionais, vale para os outros cursos. No resto do mercado de trabalho, todos são iguais.
6. O curso de relações internacionais tem dois problemas. O primeiro é que não existe um mercado de baixo nível para relações internacionais, então ou o sujeito estuda e se qualifica e atua em alto nível ou não atuará em uma área que seja estritamente relações internacionais. O segundo problema (que parece trivial, mas não é) é que não existe um termo para designar o profissional de relações internacionais, o que aumenta a insegurança sobre qual a atividade a ser exercida pelo graduado e gera confusão também para o empregador identificar o que o graduado está apto a fazer. No entanto, pergunte para alguém o que faz o economista? Ou o que faz o sociólogo? Ou o que faz o cientista política? Ou o engenheiro de alimentos? Ou o geógrafo? O que faz um matemático? Qual a diferença entre o cientista da computação ou engenheiro da computação? Alguém que cursa processamento de dados e outro que curso ciência da computação estão no mesmo mercado de trabalho são concorrentes?
7. Deve-se estudar relações internacionais quando se gosta de estudar política interna, política mundial, economia política internacional, quando está disposto a ler, a ter discussões teóricas, a ver muita teoria, a pensar de forma cada vez mais abstrata. Se tiver estes pré-requisitos, os resultados virão do ponto de vista acadêmico e no mercado de trabalho não encontrará dificuldade maior do que o estudante de qualquer outro curso mesmo que a apreensão seja maior do que a dos alunos dos outros cursos, porque o curso e seu potencial é desconhecido pelos próprios alunos. Mas deve ser lembrado que quem escolhe cursar relações internacionais é porque tem pretensões maiores do que quem escolhe administração, comércio exterior, letras, ciências contábeis, arquivologia ou outros, então a incerteza também é maior, quanto maior o salto que se quer quer dar maior o risco de fracasso. Mas o curso de relações internacionais não é um trampolim inferior aos outros cursos, ao contrário, é melhor, mas proporciona riscos maiores. Pode-se pilotar como o Senna ou como Rubinho, como Rubinho pode bater o record de corridas, mas nunca será campeão. Como o Senna, bate-se records de vitórias, torna-se campeão, mas corre-se o risco de não terminar a prova. Para cursar relações internacionais não precisa ser um Senna, mas certamente não pode ser um Rubinho. O Rubinho cursaria administração, direito, etc.

Um comentário:

Anônimo disse...

Maravilhoso texto.