"Desde mi punto de vista –y esto puede ser algo profético y paradójico a la vez– Estados Unidos está mucho peor que América Latina. Porque Estados Unidos tiene una solución, pero en mi opinión, es una mala solución, tanto para ellos como para el mundo en general. En cambio, en América Latina no hay soluciones, sólo problemas; pero por más doloroso que sea, es mejor tener problemas que tener una mala solución para el futuro de la historia."

Ignácio Ellacuría


O que iremos fazer hoje, Cérebro?

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Entrevista de Tamás Szmrecsányi aoc Correio da Cidadania!

Lobbies e desinformação dominam discussão sobre biocombustíveis

Escrito por Valéria Nader

06-Dez-2007

Na esteira de uma crise ambiental planetária que se alarga e se evidencia a cada dia, chamando a atenção de muitos que até então viam nas advertências de cientistas nada mais do que mero alarmismo, os biocombustíveis tornaram-se um dos grandes focos de discussão.

Para uns, trata-se de excelente solução para a poluição do planeta, na medida em que constituem uma fonte de energia limpa, evitando a eliminação dos gases de efeito estufa advindos da queima dos combustíveis fósseis. No Brasil, então, não haveria como não adotá-los, vistas as enormes extensões de terra passíveis de serem cultivadas com a cana-de-açúcar e as louváveis condições naturais para esse cultivo.

Do outro lado, críticas contundentes. Minoram-se os ganhos energéticos, que deveriam ser relativizados pelas condições sob as quais se cultiva a cana. Alerta-se ainda para a degradação do meio ambiente; o reforço da monocultura e da concentração das propriedades, em detrimento da agricultura familiar e da produção de alimentos; a submissão da força de trabalho a condições desumanas; e a reduzida geração de empregos.

Não é preciso ser especialista para observar a panacéia atual em torno ao etanol. Basta viajar pelo interior do estado de São Paulo para constatar uma nítida e brutal mudança na paisagem, em espaço curtíssimo de tempo, onde a predominância das plantações de cana-de-açúcar é absoluta. Adentrando-se por estradas vicinais, é possível ainda visualizar alojamentos precários recém construídos, muito provavelmente para abrigar os novos cortadores. Ademais, vários noticiários dão conta da elevação do preço da terra nesse último ano e, não coincidentemente, da febre na aquisição de terras e usinas destes trópicos por investidores estrangeiros.

Obviamente, grandes interesses estão em jogo e muitos lobbies, em ação. Para que, ao final, quiçá acabe por valer os interesses da nação, há que se qualificar uma discussão tão polarizada, destrinchando os argumentos de ambas as partes - mas tomando-se certamente em consideração que sempre há aquela que tem sua cadeira cativa nos grandes veículos.

Tamás Szmrecsányi, professor do Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Unicamp, uma voz rara em nossa imprensa, falou longamente ao Correio da Cidadania sobre o tema.

Nessa primeira parte de sua entrevista - publicaremos mais duas partes -, ele avalia as atuais discussões em torno dos biocombustíveis, a sua eficiência energética e os argumentos críticos a essa fonte.

Nas próximas duas partes, Tamás discorre sobre as ponderações dos defensores dos biocombustíveis, sobre as alternativas à sua produção e também a respeito da postura do governo e dos movimentos sociais.

Confira abaixo.

Correio da Cidadania: Como o senhor avalia a atual discussão em torno dos biocombustíveis, em especial o etanol, no Brasil e no mundo?

Tamás Szmrecsányi: Limitarei minhas respostas ao álcool (ou etanol, ou biocombustível), um assunto que conheço melhor. Por não me julgar, por outro lado, suficientemente entendido em plantas oleaginosas e em biodiesel, prefiro abster-me de opinar a respeito.

Em primeiro lugar, no que se refere às discussões em curso, convém distinguir entre as que são veiculadas pela mídia e as travadas em círculos acadêmicos e técnicos mais fechados. Nas primeiras, campeia a desinformação, tanto aqui, quanto lá fora, geralmente por falta de capacitação dos jornalistas profissionais, inclusive com relação à escolha de seus informantes - os quais, muitas vezes, ou carecem igualmente da necessária qualificação técnica e científica para tanto, ou são meros porta-vozes dos lobbies favoráveis aos empresários do setor sucro-alcooleiro e/ou do grande capital vinculado ao chamado agronegócio.

Lobbies com presença e influência também se fazem sentir no âmbito da comunidade científica e tecnológica. As discussões desta fora do Brasil me parecem menos suscetíveis a esse fator e, portanto, mais isentas e com melhor nível do que as do nosso meio. Aqui, além da desinformação, também há casos de censura (inclusive por parte dos órgãos de fomento à pesquisa, estatais e privados), de baixa tolerância às críticas e a pensamentos divergentes, de tendência à desqualificação e à marginalização daqueles que têm opiniões alternativas e independentes.

CC: O senhor considera os biocombustíveis uma boa opção de energia para o Brasil?

TS: Quanto à opção energética, poucos, também aqui, estabelecem uma distinção, desta vez entre o álcool hidratado e o álcool anidro.

O uso deste último como combustível misturado à gasolina numa proporção de até 25% foi, no passado, e continua sendo até hoje, uma boa opção energética para o Brasil, país possuidor de uma ampla agroindústria canavieira e que, até recentemente, não havia atingido uma relativa auto-suficiência na produção do petróleo. Este, aliás, continua sendo importado em parte, o mesmo se dando com o gás natural. A mistura do álcool anidro à gasolina me parece uma boa prática, na medida em que poupa divisas através da substituição de importações atualmente caras.

Essa prática também é interessante do ponto de vista da própria indústria sucro-alcooleira, na medida em que ajuda a diminuir os riscos e os efeitos de uma oferta excessiva de açúcar, permitindo, inclusive, manter certo controle sobre os preços deste. Isto se deve ao fato de o álcool poder ser produzido de duas maneiras: a tradicional, a partir do melaço residual da fabricação de açúcar (álcool residual); e a alternativa à produção do mesmo diretamente a partir do caldo resultante da moagem da cana (álcool direto).

Os problemas, a meu ver, surgem com a excessiva expansão da oferta de álcool hidratado, um produto intermediário na fabricação do álcool anidro (resultante da sua desidratação), e que, ao contrário deste, não tinha e continua não tendo um mercado garantido, seja dentro, seja fora do país. Tentou-se criar, aqui no Brasil, esse mercado através dos carros a álcool das décadas de 1970 e 1980 – uma experiência, cujos resultados, em termos de custos, não foram muito favoráveis. E agora está ocorrendo uma nova tentativa com os chamados carros Flex, cujos motores são abastecidos tanto pela gasolina misturada com álcool anidro como pelo álcool hidratado.

Ainda não se tem até o momento uma avaliação mais precisa dos resultados desta experiência, com respeito às dimensões do mercado interno para o álcool hidratado.

CC: As críticas aos biocombustíveis voltam-se, em frontal oposição aos defensores, à 1) degradação do meio ambiente que será ocasionada pelo cultivo de cana, 2) ao reforço da monocultura e da concentração das propriedades em detrimento da agricultura familiar e da produção de alimentos, 3) à submissão da força de trabalho a condições desumanas, 4) à reduzida geração de empregos, e 5) aos ganhos energéticos pouco significativos. Haveria nesses argumentos alguma espécie de paranóia, “eco-ignorância”, como dizem os defensores dos biocombustíveis?

TS: Essas críticas me parecem todas procedentes em termos gerais, carecendo, porém, de uma avaliação mais precisa no exame dos diversos casos individuais, em função da qual uma ou outra podem estar sujeitas a determinadas qualificações. É preciso, face a essa ressalva, ver mais de perto cada uma dessas críticas

CC: Pensando, então, mais detidamente e separadamente, em cada uma dessas críticas aos biocombustíveis, qual a sua avaliação, em primeiro lugar, quanto à degradação do meio ambiente resultante do cultivo da cana?

TS: A degradação do meio ambiente pela expansão das lavouras canavieiras tem início com a sua implantação numa área anteriormente ocupada por outras culturas, pela pecuária extensiva, ou então inexplorada ou vazia.

No primeiro caso, tende a ocorrer uma substituição da policultura pela monocultura; no segundo, dá-se a substituição de uma atividade extensiva por outra; e, no terceiro caso – por exemplo, através do desmatamento –, há um comprometimento, quando não a destruição da biodiversidade pré-existente.

Como se trata de cultivos semi-perenes, e não anuais, as lavouras de cana, se plantados em curva de nível, ajudam a combater a erosão. Ao mesmo tempo, todavia, o uso de máquinas durante os tratos culturais e principalmente monoculturais contribui para a compactação dos solos. Mas os piores impactos acabam sendo ocasionados pelas queimadas que anualmente precedem as colheitas manuais e pelo despejo indiscriminado de vinhaça não tratada.

Esta última prática envolve dois riscos ambientais ainda insuficientemente avaliados: o da penetração desse resíduo altamente poluidor (à razão de dois a três litros para cada litro de álcool), o que junta agrotóxicos no subsolo, comprometendo não apenas o lençol freático, mas aprofundando-se até águas subterrâneas mais profundas – como o aqüífero de Guarani; e o da salinização dos solos pela aplicação contínua e excessiva, com a conseqüente redução da sua fertilidade.

CC: E quanto à concentração das propriedades fundiária, com ênfase na monocultura, em detrimento da agricultura familiar e da produção de alimentos?

TS: A concentração da propriedade fundiária provocada pela expansão da monocultura extensiva da cana-de-açúcar pode ser facilmente comprovada por meio dos Censos Agropecuários e, na ausência destes, através do Cadastro do Incra relativo ao ITR (Imposto Territorial Rural).

As origens dessa tendência remontam ao período colonial; trata-se de uma recorrência da elevada integração vertical da agroindústria sucro-alcooleira, uma característica inexistente quer em outros países produtores de açúcar e de álcool, quer em outras ocupações agroindustriais do Brasil.

Paralelamente, em vez de haver uma divisão social do trabalho entre a agricultura e a indústria, as usinas açucareiras e as destilarias (anexas ou autônomas) são proprietárias da maior parte das terras que produzem a matéria-prima dessas agroindústrias. Na medida em que elas vão se expandindo, tanto a produção de alimentos como as pequenas e médias propriedades são eliminadas, com órgãos responsáveis sendo expulsos da agricultura ou empurrados para mais longe dos lugares de consumo de seus produtos.

Essa expansão forçada da fronteira agrícola envolve não apenas grandes migrações internas, mas também uma rápida e intensa destruição da biodiversidade, em áreas de cerrado especialmente.

CC: Quanto às condições desumanas a que é submetida a força de trabalho, os próprios noticiários não têm mais como mascarar essa realidade, não?

TS: Através do monopólio (sem agricultor, diz-se oligopólio) da terra, as usinas açucareiras, que possuem e/ou arrendam milhares de hectares de terras, também adotam o monopsônio (ou melhor, o oligopsônio) no emprego da força de trabalho no setor agropecuário nas regiões em que atuam. Elas empregam muita gente porque ocupam muito espaço, a maior parte das terras disponíveis, eliminando outras alternativas de ocupação da mão-de-obra. Nessas condições, elas têm o poder de impor baixos níveis salariais e/ou péssimas condições de trabalho, como ocorre nas colheitas manuais que pagam por produção (e não por horas trabalhadas).

CC: A geração de empregos é realmente tão reduzida quanto se alardeia?

TS: A geração de empregos por uma atividade pode ser e tem sido grande pelas razões expostas acima. A lavoura canavieira é a que mais pessoas emprega; trata-se porém de ocupações temporárias e sazonais, cujas remunerações têm que ser dimensionadas não pelos meses trabalhados, mas pelos doze meses do ano. Fazendo o ajuste, tais remunerações não são muito superiores aos salários mínimos regionais.

Por outro lado, o grande emprego nem sempre corresponde a uma ampla ocupação da força de trabalho. Mesmo em termos absolutos, há outras culturas que ocupam mais gente no Brasil do que a cana-de-açúcar (algo que pode ser constatado através de dados dos censos e da PNAD), e fazem isso durante o ano todo. Assim, as lavouras canavieiras podem estar desempregando pessoas, em vez de gerarem um maior número de empregos.

É uma tendência que vem se agravando pela crescente mecanização dessa atividade, que, a partir de meados da década de 1990, vem empregando cada vem menos gente por hectare / ano.

CC: E os ganhos energéticos, são mesmo pouco significativos, como analisam os críticos ao biocombustível?

TS: Os ganhos energéticos da agroindústria canavieira são atribuíveis à combustão derivada da queima do bagaço no processamento industrial da cana e sua transformação em açúcar e/ou álcool. Trata-se do excedente de energia transformada ou de fato transferida à rede distribuidora de energia elétrica.

Isso representa, sem dúvida, uma vantagem da cana em relação à beterraba açucareira no que se refere aos custos de processamento industrial.

Mas esse ganho tem que ser contraposto aos gastos de energia das máquinas e caminhões usados no cultivo e na colheita da cana, e também aos gastos do processamento industrial, no transporte do produto muitas vezes a longas distâncias. Este último problema pode ser solucionado através de maior racionalização da produção sucro-alcooleira e através da substituição dos caminhões por dutos, por ferrovias ou barcaças fluviais.

 

CC: A intensa discussão em que estão envoltos os biocombustíveis se associa de alguma maneira a interesses políticos e econômicos do atual momento vivido pelo capitalismo em escala global? Como isso se dá a seu ver?

TS: A moda atual dos biocombustíveis, e mais particularmente do bioetanol, decorre dos atuais preços do petróleo, provocados pelas intervenções militares do EUA no Oriente Médio. Trata-se de fatores conjunturais, reversíveis a curto e médio prazos. A era Bush, felizmente, está chegando ao fim, e qualquer um de seus sucessores poderá adotar outras políticas com vistas a normalizar as relações internacionais e evitar a ocorrência de uma recessão aguda do sistema capitalista. A partir do momento em que isto se der, haverá uma inflexão das tendências atuais.

Em termos estruturais e no longo prazo, não está havendo uma diminuição das reservas mundiais de petróleo; antes pelo contrário, novas reservas estão sendo descobertas continuamente, inclusive pelo Brasil. Nos países economicamente mais desenvolvidos, há programas de poupança de energia em andamento – inclusive no campo automobilístico, através dos chamados carros híbridos, com motores que não se destinam, como os carros flex, a substituir um combustível por outro, mas a poupar combustíveis em geral.

Por outro lado, os desequilíbrios entre a produção e o consumo decorrentes do intenso consumo de algumas economias asiáticas (China e Índia) não são necessariamente estruturais e também podem assumir um caráter conjuntural.

Diante disso, eu diria que as atuais tendências são movidas por motivos de curto prazo e voltadas para ganhos imediatos e de caráter especulativo, possibilitados pelas condições de países como o Brasil, onde a terra e o trabalho são baratos, e os poderes públicos complacentes e cooptáveis, dominados por minorias poderosas e rentistas, que têm conseguido manter sua hegemonia através do tempo, seja aproximando-se ao capital estrangeiro, seja subordinando a atuação do Estado a seus interesses.

CC: Os defensores dos biocombustíveis contrapõem-se a cada uma das críticas. Com relação àquela que avalia ser a cana uma monocultura, que viria reforçar a concentração de terras, em detrimento da agricultura familiar e da produção de alimentos, sinalizam os defensores que, no Brasil, estariam sendo ocupados somente 3 milhões de hectares para a produção de açúcar, outros 3 milhões para a produção de 17 bilhões de litros de álcool, e sobrariam como área passível de ser utilizada para cultivos energéticos nada menos que 300 milhões de hectares – já descontados desse total a área destinada a cultivos agrícolas e as áreas de preservação ambiental. O que você pensa sobre isso?

TS: Os argumentos levantados pelos defensores das atuais políticas e das tendências dominantes não se sustentam e fazem parte das campanhas de desinformação às quais já me referi – antigamente, havia os contos de fadas; hoje em dia predominam os contos da mídia e as verdades pseudocientíficas.

Não há dúvida de que no capitalismo atual tem prevalecido a grande produção, inclusive na agricultura. Mas isto vem ocorrendo em outros países não da mesma forma que no Brasil, não com essa concentração da renda, da riqueza e do poder, que tem como contrapartida o empobrecimento, a exclusão e a miséria de grandes massas da população.

Nos Estados Unidos e na França, não há monocultores e nem usineiros como aqui. Quanto às áreas ocupadas pela cana-de-açúcar, há que compará-las não com a superfície territorial do país, mas com o total das áreas agricultáveis, mas com o total das áreas de colheita, particularmente nos estados que são seus principais produtores – caso de São Paulo, que abastece mais da metade dos canaviais do país, e onde os mesmos ocupam quase metade das áreas cultivadas, relegando a um plano absolutamente secundário o arroz, o feijão e até o café.

Finalmente, no que se refere às áreas de preservação ambiental, há dados empíricos que mostram cabalmente que elas deixaram simplesmente de existir em áreas canavieiras como as dos cerrados de Pernambuco e Alagoas, ou aqui na região de Ribeirão Preto.

CC: Argumenta-se, ademais, nesse sentido, que a fome se deve à pobreza, é questão de falta de renda de vastos setores da população, e não de oferta de alimentos, segundo inclusive participantes da Conferência Internacional Rio+15 em setembro. Supondo que se proíba nesse setor o uso de matéria-prima alimentar, não haveria redução da pobreza no mundo e o preço do petróleo subiria ainda mais. Expandir a produção de bioenergia contribuiria, ademais, para combater a fome, ao gerar novos empreendimentos econômicos e empregos. Qual a sua visão sobre esse argumento?

TS: É verdade que a fome se deve à pobreza, mas esta é gerada pelo preço e/ou pela falta de acesso aos meios de produção capazes de alimentar a população carente.

Na verdade, o mal não está na cana, mas sim no tipo de empresas e de empresários que exploram a sua produção no Brasil, empresários que fazem parte das classes dominantes do país e que são apoiados por estas em detrimento do resto da sociedade – ou melhor, da maioria.

O aumento da produção de biocombustíveis não faz, nem fará, baixar o preços do petróleo. É a elevação dos preços que tem feito crescer a produção de álcool; na hora em que os preços do petróleo baixarem, haverá uma superprodução de álcool, como já ocorreu no passado.

Muitos dos novos empreendimentos surgidos na atual conjuntura deixarão de existir ou terão que mudar de ramo; alguns deles, aliás, nem sequer saíram ainda do papel em que foram inscritos.

A geração de empregos poderá existir, mas não será grande nem automaticamente capaz de sustentar-se por si só.

CC: Haveria ainda, nessa linha de argumentos, os ganhos de produtividade da lavoura advindos da inovação tecnológica, possibilitando aumentar a produção por terra cultivável. O que você pensa sobre isso?

TS: Os ganhos de produtividade da agroindústria canavieira ocorreram de fato, mais no segmento industrial do que no agrícola. Os ganhos se deram pela adoção de novas variedades de cana, que fazem aumentar a produção de açúcar e de álcool por hectare. Mas no que se refere à cana em si, a produtividade é medida em toneladas por hectare e não tem crescido muito, razão pela qual a lavoura canavieira continua sendo uma monocultura extensiva, cuja produção cresce mais em função da área cultivada do que devido a crescentes rendimentos por unidades de área.

Os ganhos de produtividade agroindustrial que acabam de ser mencionados constituem um argumento favorável à diminuição, e não ao aumento das áreas cultivadas. Isso é algo que poderá talvez ocorrer por meio da extração de álcool da celulose, e não mais do caldo, da cana – uma tecnologia ainda não disponível, por meio da qual se poderá aumentar muito a produtividade agroindustrial por hectare cultivado.

CC: O jornalista Vinícios Torres Freire chegou a alertar, em artigo na Folha de São Paulo, que a “teoria alcoolismo ignora o ganho de renda de países pobres que plantariam cana (e poderiam comprar comida, que ainda sobra no mundo), ignora ganhos de produtividade das lavouras e os estímulos de preço (se a comida fica cara, planta-se mais comida)”. Quanto ao ganho de renda, cita-se, por exemplo, que, dos 17 bilhões de litros de álcool produzidos atualmente, poder-se-ia chegar a 44 bilhões de litros em 2016, segundo o mais recente (e crítico) documento da própria FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação). No que se refere aos estímulos de preço, considerando características singulares de um país como o nosso - tais quais o sol, as terras agricultáveis e até mesmo a água -, o argumento crítico relativo aos impactos da produção de biocombustíveis na elevação dos preços de alimentos seria pouco significativo: preços em elevação seriam, outrossim, um estímulo à expansão da produção. O que você responderia?

TS: Não conheço o artigo do referido jornalista, mas poderia comentar as idéias que ele veicula da seguinte forma: (a) plantar mais comida em um país dominado pela cana é algo complicado, como se pode observar pela história da zona da mata no nordeste. No caso de São Paulo, atualmente, boa parte do abastecimento alimentar vem dos estados do Sul, graças ao fato de a expansão canavieira não poder ir além do norte do Paraná, por razões climáticas; (b) Os repiques inflacionários através da alta dos preços dos produtos alimentícios no Brasil podem ser atribuídos à expansão canavieira; em âmbito internacional, também tem havido uma alta, em função do aumento dos preços do milho usado tanto para fazer álcool nos EUA, como para fabricar ração para animais produtores de carne.

CC: Ainda nessa linha, insinua-se que o cultivo do etanol colocaria o Brasil em uma escala ainda mais privilegiada no comércio internacional de commodities, no caso os bios, com significativos ganhos de renda. Nesse sentido, advoga-se a redução de tarifas por parte de países desenvolvidos para impulsionar esse comércio, com o que se incluiriam os emergentes em um “novo ciclo de geração de riqueza”. O que você pensa sobre isso?

TS: Os programas de biocombustíveis dos países mais desenvolvidos não se destinam a abrir mercados para países em desenvolvimento, mas para resolver seus próprios problemas de curto, médio e longo prazos.

CC: Quanto à crítica relativa ao balanço energético negativo do álcool – onde se gastaria mais combustível fóssil para produzi-lo do que aquele que ele economizaria -, o físico Rogério Cezar Cerqueira Leite diz que, para cada unidade de combustível fóssil despendida para produzir o álcool, mais de 8 unidades deixarão de ser queimadas. É correto esse raciocínio, a seu ver?

TS: Não entendi bem o raciocínio do professor Cerqueira Leite, e tampouco pude perceber qual é a sua relevância prática. O álcool nunca conseguirá substituir uma grande parte do consumo de petróleo, e um excessivo aumento de sua produção acaba criando uma série de problemas sociais, econômicos e ambientais.

CC: No que se refere à degradação ambiental, o mesmo Rogério César avalia que as terras mais férteis do globo são aquelas cultivadas há séculos, e que, atualmente, não existe mais no Brasil vinhoto nos rios e nos mananciais e que a queima de palha já foi reduzida e o será mais ainda com a mecanização da lavoura. Qual a sua opinião?

TS: Também aqui há vários argumentos misturados e cuja relevância prática é difícil avaliar. A presença de vinhoto em cursos d’água e em mananciais continua existindo no Brasil, embora não seja registrada por falta de fiscalização. A colheita mecanizada de cana crua é ambientalmente e também do ponto de vista trabalhista a melhor prática possível. Mas ela precisaria ser complementada pela liberação das áreas não mecanizadas para outras culturas, e inclusive para a reforma agrária, se essas culturas não surgirem espontaneamente.

Na verdade, uma medida de fundamental importância seria a adoção de um zoneamento agroecológico e socioeconômico entre as diversas culturas e atividades, a fim de manter uma convivência entre as grandes lavouras, de um lado, e policulturas e biodiversidade, do outro.

CC: Dizem ainda os defensores do etanol que a preocupação com a água consumida pela cultura da cana é infundada, na medida em que o que existe é um complexo processo de ingestão/evaporação, no qual a água voltaria para a natureza na mesma proporção em que foi utilizada. O que você pensa disso?

TS: A cana de açúcar requer muita água, o mesmo se dando com o segmento industrial da agroindústria. Se este recurso for suficiente ou abundante, não há maiores problemas. Mas, caso isto não ocorra – por exemplo, na agricultura irrigada –, surgem problemas de prioridade social e econômica. E, no caso das usinas e destilarias, há o problema da cobrança da água utilizada e às vezes poluída por elas.

CC: Em uma versão mais política, a defesa do etanol chega também a citar Fidel Castro e Hugo Chávez, que teriam “virado a casaca”, passando de defensores a críticos contumazes do etanol em apenas um mês, uma vez diante da possibilidade de concretização da parceria Brasil-EUA na produção de bioenergia – especialmente após a vinda de Bush ao Brasil. Quanto a Chávez, especificamente, teria um motivo a mais para estar à revelia do projeto, um concorrente em potencial para o petróleo venezuelano. O que responder a essa versão?

TS: As críticas a Fidel Castro e a Hugo Chávez me parecem tão ridículas quanto a confiança depositada nas profecias de Bush para o Brasil.

 

Correio da Cidadania: Existe um grupo de entusiastas do etanol, a exemplo do físico e “pai do Proálcool”, José Walter Bautista Vidal, que o vê como uma grande oportunidade em um país que tem excelentes condições naturais para o cultivo da cana, com água e terra abundantes, uma tradição de mais de 400 anos em sua plantação, além de cerca de 40 anos no desenvolvimento da tecnologia do álcool. Mas, ao mesmo tempo em que enxergam o Brasil como uma possível potência energética, são cautelosos ao perceberem um governo que não possui um projeto bem delineado para o desenvolvimento do etanol, correndo o risco de perder o bonde tecnológico e também o controle da cadeia de distribuição de um setor de importância estratégica, que não poderia ficar nas mãos de umas poucas multinacionais. Como você encara essa percepção de nossa realidade?

Tamás Szmrecsányi: Ao contrário de Bautista Vidal, não sou nem nunca fui entusiasta do Proálcool, principalmente do modo que como foi feito, em benefício exclusivo de algumas centenas de usineiros, herdeiros dos senhores de engenho coloniais, concentradores das terras e da oferta de empregos.

A cana-de-açúcar é uma planta versátil, capaz de produzir muitas coisas úteis e agradáveis. Mas é preciso lembrar que os solos e águas em que se baseia a sua cultura são mais flexíveis ainda, capazes de produzir muitas outras coisas igualmente necessárias para a vida humana e social, e de beneficiar muito mais pessoas do que apenas e unicamente a agroindústria canavieira.

Esta, em conseqüência disto, não pode e nem deve ter o monopólio de todos os recursos naturais disponíveis. Embora reconheçamos o potencial do álcool, não vejo nele uma panacéia capaz de resolver todos os nossos problemas de subdesenvolvimento e de dependência. Antes, pelo contrário, considero que um aumento indiscriminado e sem critérios de sua produção poderá trazer – e já está trazendo – à tona outros problemas de difícil solução.

No que se refere ao controle de sua distribuição por algumas poucas multinacionais, acredito que o risco existe, mas são os próprios empresários do setor que preferem não confiá-la ao governo ou a uma entidade estatal como a Petrobras.

De um modo geral, o chamado agronegócio está fortemente integrado no que eu chamo de burguesia colonial. O risco de perderem o bonde tecnológico também existe, apesar dos investimentos feitos recentemente por entidades de fomento como a Fapesp e o CNPq.

CC: Haveria algum modelo de produção de biocombustíveis adequado para o Brasil?

TS: O modelo de produção de biocombustíveis adequado para o Brasil seria um voltado prioritariamente para as necessidades do mercado interno, e não para hipotéticos e problemáticos mercados de exportação. Essas necessidades possuem, evidentemente, os seus limites, mas se trata de um mercado garantido, expansível e mais fácil de ser controlado.

Apenas os eventuais excedentes deveriam ser exportados. E, já que o Brasil é um país tecnologicamente tão avançado na produção de álcool, esse mercado deve permanecer aberto à concorrência de outros fornecedores e de outras fontes energéticas, a fim de evitar qualquer acomodação tecnológica e de garantir a continuidade do progresso técnico no setor.

CC: Um de nossos colunistas advoga, por exemplo, que o “problema da humanidade consiste em aprender como bater-se, não contra os biocombustíveis ou as novas tecnologias, mas contra o capitalismo, que os utiliza apenas para seu lucro exclusivo. Sob este ângulo, os camponeses poderiam redirecionar sua luta, para aliar-se às classes e segmentos sociais que enxergam nos biocombustíveis uma nova oportunidade de sobrevivência. E, do ponto de vista econômico, talvez essa seja uma boa oportunidade tecnológica para os camponeses cultivarem plantas produtoras de biocombustíveis, adaptáveis às pequenas e médias propriedades”. Como você encararia essa defesa?

TS: Diria apenas que dentro do modelo atual inexistem possibilidades de conciliação entre pequenos produtores e a agroindústria canavieira.

No nível de assentamentos do INCRA, poder-se-ia eventualmente pensar em micro-destilarias de álcool e/ou micro-usinas de processamento de oleaginosas para a produção de biodiesel, cujos proprietários seriam os próprios assentados junto com o INCRA, a quem pertenceriam as terras onde cultivam.

Mas isto se contraporia ao sistema ora vigente e não parece ter maior aceitação dentro do governo, para não falar dos usineiros, que desejam transformar os assentados em fornecedores de cana ou simplesmente apossar-se do controle das terras deles via arrendamento. Ambas essas alternativas poriam fim (e em alguns casos já estão pondo) ao arremedo de reforma agrária ora praticado no Brasil.

CC: Existem ainda aqueles que consideram os biocombustíveis um item estratégico na preparação do mundo para o fim da era do petróleo, em transição para a “era solar” da qual fazem parte a bioenergia e outras fontes renováveis. Expedito Parente, o engenheiro químico que criou e patenteou o biodiesel no Brasil há 30 anos e que agora formou a empresa Tecbio Tecnologias Bioenergéticas, que desenvolve o bioquerosene para aviação, afirma que suas matérias-primas principais tenderão a ser óleos derivados de frutos de diversas palmeiras, como o coco da Bahia, na realidade proveniente da África, e outras nativas do Brasil, como o babaçu, abundante em uma extensa região do nordeste e norte do país. Você acredita nessas hipóteses?

TS: Não acredito, por enquanto, nem no fim da era do petróleo nem na capacidade de os biocombustíveis virem a substituí-lo, a não ser marginalmente, dentro de uma hipotética “era solar”. Em compensação, sou favorável tanto à energia solar como à energia eólica e à das marés, que são todas modalidades de energia limpa sem impactos sobre a estrutura fundiária, já tão concentrada, de nosso país.

CC: Jorio Dauster, presidente da Brasil Ecodiesel, considerou, por sua vez, em entrevista à IPS, que, inicialmente, predominaria a soja, que não apresenta a melhor eficiência energética, mas é a que dispõe de estrutura produtiva em 20% a 30% do total das matérias-primas. O girassol seria uma excelente matéria-prima, mas sua produção era quase nula no Brasil e somente agora, com o biodiesel, ganhou novas perspectivas de expansão, inclusive em combinação com a soja e outros cultivos de verão. O rícino passou a chamar a atenção, mas, até agora relegado, sua produtividade no país chegaria a apenas 500 quilos por hectares, menos da metade daquela registrada na Índia. Outra possibilidade destacada por Dauster seria o melhor aproveitamento do algodão, mas tudo isso exigiria uma nova estrutura produtiva, com a instalação de indústrias de óleo, e a eliminação de distorções na economia brasileira, que favorecem, por exemplo, a exportação de soja em grão, em lugar do óleo. Você enxerga também essas possibilidades?

TS: Não me considero especialista em oleaginosas e biodiesel. Até onde sei, o Brasil encontra-se em uma posição de relativo atraso tecnológico nesse aproveitamento energético, o qual me parece, por enquanto, menos nocivo do que o do álcool em termos econômicos e sociais.

Neste caso, tratar-se-ia mais de agregar valor a uma produção agrícola já existente do que de expandir a todo custo uma monocultura extensiva como a da cana-de-açúcar. Devido a isso tendo a concordar com as opiniões de Jorio Dauster.

CC: Como você vem enxergando a postura do governo diante desse quadro?E quanto à postura dos movimentos sociais, como estão e qual deveria ser seu papel?

TS: O governo não parece ter o mínimo interesse nessas questões. Os movimentos sociais procuram interessar-se por elas e até inventar metas para criar novas opções.

http://www.correiocidadania.com.br/content/view/1378/58/

Jeffrey Sachs destruiu a Bolívia, mas quanto ao Quênia está correto!

El recuento de los votos en Kenya

by Jeffrey D. Sachs

Kenya está en llamas tras las elecciones presidenciales del 27 de diciembre que muchos creen que estuvieron manipuladas para asegurar la reelección de Mwai Kibaki. Los opositores de Kibaki salieron a las calles, el gobierno dio órdenes de tirar a matar y cientos de personas han muerto a manos de la policía, de grupos armados y a causa de la violencia interétnica. Estados Unidos ha encabezado la respuesta diplomática internacional, pero su enfoque está muy errado.

La participación fue muy elevada y muchos kenyanos esperaron bajo el ardiente sol durante varias horas para entrar a las casillas electorales en todo el país. Los primeros votos que se contaron fueron los correspondientes al parlamento de Kenya, y los ministros del gobierno de Kibaki fueron rotundamente derrotados en sus circunscripciones locales. La principal alianza opositora, encabezada por Raila Odinga, obtuvo alrededor de 100 escaños, contra unos 30 para Kibaki. Parecía muy probable que el escrutinio de la elección presidencial mostraría igualmente que Odinga había derrotado a Kibaki por un amplio margen.

En efecto, así sucedió en los primeros momentos del recuento. A medida que los totales de las casillas de todo el país llegaban a Nairobi, Odinga iba acumulando una ventaja de varios cientos de miles de votos. Entonces comenzaron los problemas. Las cuentas de los votos en la zona del centro de Kenya de donde es originario Kibaki se retrasaron. Los observadores independientes de la Unión Europea y otros lugares comenzaron a informar sobre irregularidades graves en los bastiones de Kibaki, donde se negó el acceso a las casillas a los representantes de los partidos de oposición.

Las cosas se hicieron aún más turbias cuando se reunieron y registraron los resultados en la Comisión Electoral de Kenya (CEK). Según las pruebas detalladas presentadas por la oposición, los escrutinios procedentes del campo, que ya estaban inflados a favor de Kibaki, se volvieron a manipular para asignarle más votos. Como resultado, la CEK registró muchos más votos para la elección presidencial que para la parlamentaria, aun cuando se indicó claramente –de hecho se exigió-- a los electores que emitieran un voto para cada elección.

Cuando la oposición intentó protestar por estas inconsistencias, la CEK abruptamente declaró a Kibaki como ganador. Días después, el director de la CEK reconoció públicamente que los seguidores de Kibaki lo habían presionado para que anunciara los “resultados” inmediatamente, a pesar de las evidencias claras de manipulación de los votos. Declaró, de manera impactante, que no sabía quién había ganado en realidad. Los observadores de la UE también anunciaron que el escrutinio de las elecciones no había cumplido las normas internacionales básicas.

La elección es un desastre para Kenya, pero la respuesta de la comunidad internacional encabezada por Estados Unidos no es menos preocupante. La política exterior estadounidense en África está en manos de la Secretaria de Estado Asistente Jendayi Frazer, ex alumna de la Secretaria de Estado Condoleezza Rice. Desde el principio de la crisis postelectoral, Frazer adoptó tres posturas erróneas.

En primer lugar, declaró que la votación no debía reevaluarse a la luz de un conteo independiente. De hecho, la mayoría de los observadores que estuvieron presentes creen que hay suficientes evidencias documentales desde las casillas hasta Nairobi que podrían revisarse detalladamente.

En segundo lugar, afirmó que hubo manipulación del voto “en ambos bandos”, e insinuó que el resultado real de la elección había sido muy cerrado y que tal vez Kibaki había ganado. Dada la gran cantidad de pruebas directas y circunstanciales de que la manipulación fue a favor de Kibaki, el que Frazer culpara por igual a los dos bandos causó sorpresa y consternación entre la oposición. Tampoco aceptó una encuesta de salida llevada a cabo por una fundación estadounidense que indicaba una victoria clara para Odinga.

Por último, Frazer sostuvo que ambas partes debían llegar a un acuerdo y compartir el poder. En lugar de eso, Kibaki displicentemente nombró a 18 miembros clave del gabinete justo cuando la “mediación” externa estaba por comenzar. Por supuesto, a la oposición le causó extrañeza el llamado a negociar de Estados Unidos sin que hubiera ninguna exhortación a revisar la votación misma.

En última instancia, sólo Kenya decidirá su propio destino. Ni Estados Unidos ni otras potencias extranjeras salvarán la democracia kenyana. Las amenazas, sanciones o recortes de la ayuda únicamente dañarían más a una economía que ya de por sí se está desplomando, lo que sería un castigo trágico para los pobres de Kenya que fomentaría más violencia.

Sin embargo, la comunidad internacional puede desempeñar un papel más constructivo que el que ha tenido hasta ahora si presiona a ambos bandos para que acepten un recuento independiente. Al apoyar los principios democráticos, el mundo estaría apoyando realmente al pueblo kenyano.

Al desestimar ese recuento, Frazer envió el mensaje a los kenyanos de que no deben esperar que sus votos se cuenten correctamente y que el poder se puede tomar o incluso negociar tras bambalinas. También envió una señal inequívoca a quienes quieran robar votos: en el peor de los casos, tendrán que compartir algunos puestos del gabinete con la oposición.

Tal vez un recuento mostraría que las elecciones estuvieron demasiado cerradas para declarar un vencedor. Quizá, como insiste la oposición, señalaría una victoria clara para Odinga. En cualquiera de esos casos, se tomaría en cuenta a los kenyanos y sus votos y los temperamentos bien podrían calmarse. Sólo es razonable hacer un llamado a compartir el poder (o a una nueva elección) si ambas partes aceptan que no hubo un claro ganador.

Todavía hay tiempo para corregir la situación. La comunidad internacional debe dejar de presionar para que haya un “acuerdo” tras bambalinas que ignore la voluntad popular. Que el mundo no apoye a Kibaki ni a la oposición, ni un arreglo arbitrario, sino a los electores kenyanos.

Si Kibaki se opone a un recuento independiente, su negativa resonará en Kenya y en todo el mundo. Quienes ignoran a los electores deben aprender pronto que no se pueden esconder.

Jeffrey Sachs es Profesor de Economía y Director del Instituto de la Tierra en la Universidad de Columbia.

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Já dizia Rousseau o homem é bom, a sociedade que o corrompe!

El efecto Lucifer

by Phillip Zimbardo

¿Por qué personas buenas y corrientes a veces se vuelven perpetradoras del mal? La transformación más extrema de esa clase es, naturalmente, la historia del ángel favorito de Dios, Lucifer… y que ha constituido el marco para mis investigaciones psicológicas de transformaciones humanas menores como reacción a la influencia corrosiva de fuerzas situacionales poderosas.

Dichas fuerzas existen en muchos marcos comunes de comportamiento y alteran nuestro buen carácter habitual al incitarnos a caer en un comportamiento desviado, destructivo o perverso. Al encontrarse en ambientes nuevos y desconocidos, nuestras formas habituales de pensar, sentir y actuar dejan de funcionar para mantener la brújula moral que nos ha guiado de forma fiable en el pasado.

A lo largo de los tres últimos decenios, mis investigaciones y las de mis colegas han demostrado la relativa facilidad con la que se puede dirigir a personas corrientes para que adopten comportamientos considerados perversos. Hemos sometido a los participantes en las investigaciones a experimentos en los que fuerzas situacionales poderosas –anonimato, presiones grupales o difusión de responsabilidad personal- los incitan a obedecer ciegamente a la autoridad y agredir a otros inocentes después de deshumanizarlos.

Mi reciente libro The Lucifer Effect: Understanding How Good People Turn Evil (“El efecto Lucifer. Para entender por qué personas buenas se vuelven perversas”) describe las transformaciones radicales que se produjeron en estudiantes universitarios que jugaban con los papeles, asignados al azar, de prisioneros y guardias en una cárcel simulada en la Universidad de Stanford. A continuación establece paralelismos directos con los malos tratos cometidos por soldados americanos en la cárcel de Abú Graib (Iraq) y presenta gran parte de la investigación de las ciencias sociales que ilustran el poder de las situaciones sociales para dominar los caracteres individuales.

Esa labor pone en tela de juicio los estudios tradicionales centrados en la naturaleza interna, el carácter y los rasgos de personalidad de la persona como factores primordiales –y con frecuencia los únicos- para entender los fallos humanos. En cambio, yo sostengo que, si bien la mayoría de las personas son buenas la mayor parte del tiempo, se las puede incitar fácilmente a actuar de forma antisocial, porque las mayoría de las personas raras veces son figuras solitarias que improvisan soliloquios en el escenario vacío de la vida.

Al contrario, las personas se encuentran con frecuencia en un conjunto de intérpretes diferentes, en un escenario con diversos accesorios, vestuario, guiones y direcciones escénicas de productores y directores. Juntos, comprenden rasgos situacionales que pueden influir espectacularmente en el comportamiento. Lo que las personas aportan a cualquier ambiente es importante, pero también lo son las fuerzas situacionales que actúan sobre ellos, así como las fuerzas sistémicas que crean y mantienen las situaciones.

La mayoría de las instituciones que sostienen una orientación individualista consideran a la persona pecadora, culpable, afligida, demente o irracional. Los programas de cambio siguen un modelo de rehabilitación, terapia, reeducación y tratamiento o un modelo punitivo de reclusión y ejecución, pero todos esos programas están condenados a fracasar si la principal causa agente es la situación o el sistema y no la persona.

A consecuencia de ello, son necesarios dos tipos de cambio de paradigma. Primero, debemos adoptar un modelo de salud pública para la prevención de la violencia, los malos tratos al cónyuge, la intimidación, el prejuicio y demás, que determine los vectores de enfermedad social contra los que se deba vacunar. Segundo, la teoría jurídica debe volver a examinar el grado en que se deben tener en cuenta los factores situacionales y sistémicos poderosos al castigar a las personas.

Aunque gran parte de El efecto Lucifer examina lo fácil que resulta a las personas corrientes ser seducidas para que cometan acciones perversas o para que permanezcan pasivamente indiferentes ante el sufrimiento de otras, el mensaje más profundo es positivo. Entendiendo el cómo y el porqué de semejantes acciones es como nos encontramos en condiciones mejores para descubrirlas, oponerles resistencia, desafiarlas y superarlas. Al volvernos más “expertos en perversión”, creamos resistencias contra la posibilidad de que nos ajusten negativamente nuestra brújula moral.

En ese sentido, El efecto de Lucifer es una celebración de la capacidad humana para elegir la amabilidad y no la crueldad, el interés y no la indiferencia, la creatividad y no la destructividad y el heroísmo y no la infamia. Al final de mi relato, invito a los lectores a que examinen estrategias fundamentales para resistir y desafiar las influencias sociales no deseadas e introduzco el concepto de “la trivialidad del heroísmo”. Al fin y al cabo, la mayoría de los héroes son personas corrientes que realizan acciones morales extraordinarias.

Teniéndolo presente, propongo una perspectiva situacional para el heroísmo, como también para la perversión: la misma situación que puede despertar la imaginación hostil y la perversión en algunos de nosotros puede inspirar la imaginación heroica en otros. Debemos enseñar a las personas, en particular a nuestros hijos, a verse como “héroes en espera”, listos para realizar acciones heroicas en una situación particular que puede presentarse sólo una vez en toda la vida.

Philip Zimbardo es profesor emérito de Psicología en la Universidad de Stanford. Véase www.lucifereffect.com.

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O cinismo do Ocidente. Por que o Ocidente pode interferir nos assuntos internos da Sérvia e isto é moderno e quando são os russos a interferência é sintome de ressurgimento da velha Rússia? E o velho Ocidente alguém se lembra dele?

Las travesuras de Putin en los Balcanes

by Morton Abramowitz

Esta vez, el Kremlin ha puesto la piedra en el zapato de Occidente en lo que se refiere al largo y doloroso esfuerzo para dar a Kosovo la independencia formal. A diferencia del altercado sobre el escudo de misiles estadounidense en Europa, este conflicto no muestra señales de calmarse y amenaza con dañar más la tambaleante relación entre Rusia y Occidente.

En cada oportunidad, Rusia ha desafiado los esfuerzos de Occidente para facilitar la independencia de Kosovo. Después de un año de negociaciones entre Serbia y Kosovo, el Kremlin del Presidente Vladimir Putin rechazó el informe del mediador de Naciones Unidas que recomendaba una independencia supervisada, impidió que el Consejo de Seguridad aceptara ese informe e insistió en un plazo adicional de tres meses para las negociaciones entre Serbia y Kosovo, incluso después de que un arreglo se había hecho imposible.

Hace tres semanas, Rusia insistió de nuevo en el Consejo de Seguridad que cualquier acuerdo requería la aprobación tanto de Serbia como de Kosovo, y que eran necesarias negociaciones adicionales. Rusia sabe que esas negociaciones serán infructuosas, pero cree que otro llamado aparentemente inocente a celebrar más negociaciones presionará la unidad de la UE, que parece ser un objetivo vital para Putin. Una mayor demora también podría generar violencia en Kosovo y debilitar el apoyo internacional a la independencia.

El odio de Putin hacia las relaciones “serviles” con Occidente de la era de Yeltsin es lo que alimenta su oposición. Pero la demora de Occidente en resolver la situación de Kosovo permitió que esa oposición se consolidara. En efecto, el Occidente ha malinterpretado sistemáticamente las intenciones de Rusia en Kosovo. Muchos afirmaban que el Kremlin estaba retrasando lo inevitable, pero que al final no obstruiría la independencia. Ahora, al cuarto para las doce, Rusia se aferra a su postura obstruccionista y es probable que las elecciones presidenciales de marzo refuercen las posiciones en contra de Occidente.

¿Qué hará entonces Putin cuando Estados Unidos y la mayoría de los miembros de la Unión Europea reconozcan la independencia de Kosovo en los próximos meses sin el aval de la ONU, como ahora lo prevén? Es poco probable que el Kremlin intente otra intervención militar en Kosovo (su esfuerzo por depositar tropas en el aeropuerto de Pristina en 1999 fue un fracaso), pero tiene una gama de opciones que harán que Occidente reflexione.

El apoyo del Kremlin ha hecho que la intransigencia nacionalista de Serbia en cuanto a Kosovo sea efectiva. Rusia ha declarado que no extenderá a Serbia un cheque en blanco, pero es probable que apoye los esfuerzos del gobierno serbio para aislar y desestabilizar a un Kosovo independiente.

Mientras que Serbia se ha opuesto a la partición de Kosovo, Rusia también apoyaría una propuesta serbia de dividir el norte, de población serbia, lo que abriría una caja de Pandora de posibles particiones de Serbia, Bosnia y Macedonia. Tal propuesta podría obtener cierto apoyo en Europa y otros lugares como un arreglo aparentemente adecuado, aun cuando desestabilizara de nuevo a los Balcanes.

Rusia seguramente continuará sus esfuerzos diplomáticos para convencer al mundo de que las negociaciones son la única forma de resolver el problema, y que no se puede solucionar fuera de la ONU. Esto conseguirá el apoyo de muchos miembros de Naciones Unidas, incluyendo aquéllos que tienen minorías étnicas insatisfechas importantes.

Rusia también podría reaccionar más allá de los Balcanes, con mayor probabilidad en el Cáucaso y sus regiones separatistas, particularmente en Georgia. Una declaración de independencia de Kosovo probablemente traerá una declaración similar de la región separatista de Abjasia en Georgia, que Rusia bien podría reconocer. Si Georgia toma medidas militares para impedirlo, el ejército ruso probablemente reaccionaría con la fuerza, lo que crearía una situación que podría salirse de control.

Si bien Estados Unidos y la UE no desean empeorar las relaciones con Rusia, no pueden retirarse ante la obstinación de ese país. La seguridad de Europa está en juego. Pero también deben seguir tratando de adelantarse a la confrontación con Rusia en todos los frentes.

El Occidente debe dejar claro a Serbia que reaccionará con firmeza contra cualquier esfuerzo de promover la violencia o la división de Kosovo. Sería útil enviar tropas adicionales de la OTAN, además de la misión prevista de la UE, para supervisar la independencia de Kosovo.

La Rusia de Putin, que no hace mucho caso al Estado de derecho, oculta sus esfuerzos diplomáticos bajo el disfraz del respeto al derecho internacional, en particular a la resolución 1244 del Consejo de Seguridad de la ONU con la que acabó la guerra de Kosovo de 1999. Desde hace mucho, debe emprenderse una ofensiva diplomática para contrarrestar los argumentos rusos y recordarle al mundo lo que sucedió en Kosovo.

La resolución 1244 no estipula que Kosovo debe quedar bajo la soberanía de Serbia, como insisten rusos y serbios, ni impide la independencia. En efecto, cualquier lectura razonable de la resolución –sobre todo en el contexto de los múltiples conflictos de los Balcanes en las últimas dos décadas—reconocería que la independencia cumpliría su intención, y el propósito de mantener la supervisión por parte de la ONU de la provincia durante los últimos ocho años.

En el caso de Abjasia, Occidente debe reiterar la naturaleza sui generis de Kosovo y subrayar los enormes esfuerzos que se han hecho ahí desde 1999. El mundo debe dejar claro que la participación militar de Rusia en Abjasia es inaceptable, y al mismo tiempo, evitar que el gobierno de Georgia reaccione militarmente ante alguna provocación.

La forma en que Rusia reaccione al apoyo de Occidente a la próxima declaración de independencia de Kosovo demostrará cuánto hemos avanzado desde la Guerra Fría. A través de un manejo cuidadoso del proceso de independencia de Kosovo y de estar atento a las oportunidades de mejorar las relaciones con Rusia, el Occidente podría mitigar las consecuencias de esta confrontación. No obstante, una nueva Guerra Fría podría enfriarse un poco más.

Morton Abramowitz es miembro de la Century Foundation y ex Secretario Asistente de Estado para Inteligencia e Investigación.

O original e a cópia: o Brasil segundo Silvio Romero

"Deu-se, entretanto, uma espécie de disparate [...]: uma pequena elite intelectual separou-se noravelmente do grosso da população, e, ao passo que esta permanece quase inteiramente inculta, aquela, sendo em especial dotada da faculdade de aprender e imitar, atirou-se a copiar na política e nas lestras quanta coisa foi encontrando no Velho Mundo, e chegamos hoje ao ponto de termos uma literatura e uma política exóticas, que vivem e procriam em uma estufa, sem relações com o ambiente a temperatura exterior. É este o mal de nossa habilidade ilusória e falha de mestiços e meridionais, apaixonados, fantasistas, capazes de imitar, porém orgaqnizamente impróprios para criar, para inventar para produzir coisa nossa e que saia do fundo imediato ou longíquo de nossa vida e de nossa história.

"Durante os tempos coloniais, a hábil política de segregação, afastando-nos dos estrangeiros, manteve-nos um certo espírito de coesão. Por isso tivemos Basília, Durão, Gonzaga, Alvarenga Peizoto, Claudio e Silva Alvarenga, que se moveram num meio de idéias puramente portuguesas e brasileiras.

"Com o primeiro imperador e a Regência, a pequena fresta (aberta) no muro do nosso isolamento por D João VI alargou-se, e começamos a copiar o romantismo político e literário dos franceses.

"Macaqueamos a carta de 1814, transplantamos para cá as fantasias de Benjamin Constant, arremedamos o parlamentarismo e a política constitucional do autor de Adolphe, de mistura com a poesia e os sonhos do autor de René e Atala.

"O povo, este continua a ser analfabeto.

"O segundo reinado, com sua política vacilante, incerta, incapaz, durante cinqüenta anos, escancarou todas as portas, e fê-lo unicamente, sem discrímen, sem critério. A imitação, a macaqueação de tudo, modas, costumes, leis, códigos, versos, dramas, romances, foi a regra geral.

"A comunicação direta para o velho continente pelos paquetes de linha regular engrossou a corrente da imitação, da cópia servil.

[...]

"E eis porque, como cópia, como arremedo, como pastiche para inglês ver, não há povo que tenha melhor constituição no papel, [...] tudo melhor... no papel. A realidade é horrível!"

Silvio Romero apud Roberto Schwarz. Que Horas são?.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Deixou de assistir o BBB8 para ler o Blog? Não tem problema!

05/02/2008 - 23h05

Thalita é eliminada do "BBB" com 65% dos votos

da Folha Online

A atriz e bartender Thalita Lippi, 30, foi eliminada do "Big Brother Brasil 8" nesta terça-feira (5) com 65% dos votos. Ela perdeu a disputa no voto popular para Fernando e Bianca, que também formavam o segundo paredão triplo do programa.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

É ético matar baleias?

¿Hipocresía en alta mar?

by Peter Singer

Hace treinta años, los buques australianos, con el consentimiento del gobierno, mataban cachalotes en la costa occidental australiana. El mes pasado, Australia encabezó las protestas internacionales contra el plan de Japón de matar 50 ballenas jorobadas. Japón, bajo una presión creciente, anunció que suspendería el plan por uno o dos años. El cambio en la opinión pública sobre la caza de ballenas ha sido dramático, y no sólo en Australia.

Greenpeace inició las protestas contra Australia por la caza de ballenas, y el gobierno nombró a Sydney Frost, un juez jubilado, para que dirigiera una investigación sobre dicha práctica. Como australiano preocupado y profesor de filosofía que trabaja sobre la ética del trato que damos a los animales, presenté una ponencia.

No aduje que la caza de ballenas debía terminar porque las ballenas estuvieran en peligro. Yo sabía que muchos expertos en temas ecológicos y biólogos marinos presentarían ese argumento. En cambio, sostuve que las ballenas son mamíferos sociales con cerebros grandes, con capacidad de disfrutar de la vida y sentir dolor –no sólo dolor físico sino también, muy probablemente, angustia por la pérdida de un miembro de su grupo.

No es posible matar a las ballenas de forma compasiva –son demasiado grandes e incluso con un arpón explosivo es difícil alcanzar a la ballena en el sitio adecuado. Además, los cazadores de ballenas no desean utilizar muchos explosivos porque así se despedazaría el cuerpo del animal y el objetivo principal es recuperar el aceite valioso o la carne. Por ello, las ballenas con heridas de arpón normalmente mueren poco a poco y con mucho dolor.

No es correcto causar dolor a seres inocentes sin que haya una razón de mucho peso para hacerlo. Si hubiera una cuestión de vida o muerte que los humanos sólo pudieran resolver matando ballenas, tal vez los reparos éticos podrían contrarrestarse. Pero no hay ninguna necesidad humana esencial que nos obligue a matar ballenas, Todo lo que extraemos de las ballenas podemos obtenerlo sin crueldad de otras formas. Por ello la caza de ballenas no es ética.

Frost coincidió conmigo. Dijo que los métodos utilizados para matar a las ballenas eran, sin lugar a dudas, inhumanos –incluso los describió como “extremadamente horribles”. También mencionó “la posibilidad real de que estemos tratando con una criatura que tiene un cerebro extraordinariamente desarrollado y un alto grado de inteligencia”. El gobierno conservador del Primer Ministro Malcolm Fraser aceptó su recomendación de suspender la caza de ballenas, y poco después Australia se convirtió en un país en contra de esa actividad.

Si bien Japón ha suspendido su proyecto de matar ballenas jorobadas, su flota ballenera aún cazará otro millar de otras ballenas, principalmente los rorcuales, más pequeños. Japón justifica la caza afirmando que es con fines de “investigación” ya que las normas de la Comisión Ballenera Internacional permiten a los países miembros matar ballenas con ese propósito. Pero parece que la investigación tiene como objetivo buscar bases científicas para reanudar la caza comercial; por ello, si la caza de ballenas no es ética, entonces la investigación en sí misma no es ni ética ni necesaria.

Japón pide que la discusión sobre la caza de ballenas se desarrolle de forma tranquila, con base en evidencias científicas, “objetivamente”. Los japoneses piensan que la cantidad de ballenas jorobadas ha crecido lo suficiente para poder cazar 50 ejemplares sin que ello suponga un riesgo a la especie. Es posible que tengan razón en este punto aislado. Pero los datos científicos, por numerosos que sean, no pueden guiar nuestra decisión de matar ballenas o no.

En efecto, el deseo de Japón de seguir cazando ballenas es igual de subjetivo que el de los ambientalistas que se oponen a ello. Comer ballenas no es necesario para la salud o una mejor nutrición de los japoneses. Es una tradición que desean mantener porque presumiblemente tienen un apego emocional a esa práctica.

Los japoneses cuentan con un argumento que no se puede desestimar fácilmente. Sostienen que los países occidentales se oponen a la caza de ballenas porque las consideran un animal especial, como los hindúes a las vacas. Los países occidentales, señalan los japoneses, no deberían tratar de imponerles sus creencias culturales.

La mejor respuesta a este argumento es que considerar incorrecto el causar sufrimiento innecesario a seres que sienten no es exclusivo de una cultura. Por ejemplo, ese es uno de los primeros preceptos de una de las tradiciones éticas más importantes de Japón: el Budismo.

Pero los países occidentales están en una posición débil para presentar esa respuesta porque infligen mucho sufrimiento innecesario a los animales. El gobierno australiano se opone firmemente a la caza de ballenas, y sin embargo permite que se maten millones de canguros cada año –una matanza que implica grandes sufrimientos para los animales. Se puede decir lo mismo de las varias formas de cacería que se practican en otros países, por no mencionar el gran sufrimiento que padecen los animales en las granjas industriales.

Se debe interrumpir la caza de ballenas porque provoca sufrimiento innecesario a animales sociales, inteligentes y capaces de disfrutar de sus vidas. Pero los países occidentales no podrán defenderse de la acusación de sesgo cultural que les hace Japón mientras no aborden el sufrimiento animal innecesario en sus propios patios traseros.

Peter Singer, profesor de bioética en la Universidad de Princeton, es autor del libro pionero Animal Liberation y, junto con Jim Mason, de The Ethics of What We Eat.

http://www.project-syndicate.org/commentary/singer32/Spanish

Era só o que faltava, primeiro o Lula, agora é a Nigéria que quer dominar o mundo!

El resurgimiento de la diplomacia petrolera de Nigeria

by Ike Okonta

Rusia no es el único país que ve el petróleo como una manera de transformar su estatus global. En estos días, el mantra del presidente Umar Yar’Adua, que asumió el poder en 2007 tras unas polémicas elecciones, es transformar el país en una de las 20 mayores economías del mundo para el año 2020. Yar’Adua y su Partido Democrático del Pueblo (PDP) está esforzándose por marcar su autoridad en un país agitado y difícil de manejar de 140 millones de personas, y el gobierno considera el crecimiento rápido como la mejor manera de lograr esa meta.

A los nigerianos les vendría bien un poco de esperanza. Olusegun Obasanjo, que se convirtió en el primer presidente electo de Nigeria en 1999 después de cerca de dos décadas de dictadura militar, dejó amplias áreas del país atrapadas en la pobreza cuando entregó el poder a Yar’Adua el año pasado. En momentos en que el petróleo está llegando a los 100 dólares el barril y gigantes como Estados Unidos y China, hambrientos de energía, golpean una y otra vez las puertas de Nigeria, el principal productor de petróleo de África desea usar los petrodólares para solucionar los problemas económicos del país y marcar una mayor presencia en el ámbito internacional.

Durante lo más alto del último boom petrolero de fines de los años 70, los gobernantes militares de Nigeria nacionalizaron los bienes de British Petroleum y se convirtieron en adalides de la cooperación panafricana, financiando varios movimientos de liberación africanos. Una y otra vez los intereses de Occidente y de Nigeria entraron en conflicto, pero Nigeria siempre se mantuvo firme.

La ineptitud del gobierno y el declive económico de los años 80 y 90 obligaron a los líderes nigerianos a centrarse en problemas más cercanos a su país, como las guerras civiles en Liberia y Sierra Leona. Sin embargo, los hábitos arraigados son difíciles de borrar. Nigeria siempre ha buscado un papel de liderazgo en África y su diáspora. Incluso en los turbulentos años 90, cuando Nigeria fue suspendida temporalmente de la Mancomunidad  Británica tras la ejecución del defensor de los derechos de las minorías Ken Saro-Wiwa por el régimen del general Sani Abacha, la elite gobernante se esforzó por alcanzar el lugar “justo” que consideraba que merecía Nigeria en la escena internacional.

Hoy hay signos de un resurgimiento de una política exterior impulsada por el petróleo. En octubre pasado, Yar’Adua se unió a Sudáfrica y Libia en su oposición a los planes de Estados Unidos de desplegar en el continente el AFRICOM, su nuevo comando militar para África. Luego pidió a la Asamblea Nacional de Nigeria que condonara $43 millones de deuda bilateral después de que la Presidenta de Liberia, Ellen Johnston-Sirleaf, retirara su ofrecimiento de albergar el nuevo comando.

Las autoridades nigerianas se han cuidado de negar cualquier relación entre este obsequio financiero y el distanciamiento de Johnston del AFRICOM. Tampoco manifiestan abiertamente su preocupación de que el AFRICOM pueda llegar a ser parte de un plan estadounidense de controlar los países productores de petróleo de África Occidental. Sin embargo, en informes confidenciales Nigeria ha dado fuertes señales de que no tolerará incursiones extranjeras sobre un recurso vital y estratégico en su propio patio trasero.

A nivel interno, los renovados bríos con que Nigeria está impulsando su política exterior se están viendo en el actual enfrentamiento entre el nuevo Consejo Nacional de la Energía, que responde ante el Presidente, y las compañías petroleras occidentales, lideradas por la filial nigeriana de Shell, acerca de cuándo poner fin a la quema de gas relacionada con la producción. El gobierno insiste en un plazo en enero de 2008, pero las compañías se quejan de que la reluctancia del gobierno de financiar  plenamente su parte de los costes operacionales y el aumento de la violencia política en el delta del Níger hacen poco realista este plazo, y piden ampliarlo tres años. El Departamento de Recursos Petroleros (DPR), la entidad reguladora de la industria petrolera, ha rechazado estos argumentos y ha amenazado con imponer sustanciosas multas a las compañías que no cumplan el plazo.

A principios de los años 90, debido a su desesperada carencia de moneda fuerte, Nigeria negoció contratos que permitían a las compañías petroleras desarrollar nuevos yacimientos y recobrar la inversión antes de compartir sus utilidades. Hoy, tras el descubrimiento de las compañías de importantes reservas, los tecnócratas nombrados por Yar’Adua como encargados de la política petrolera africana quieren que Nigeria reciba una parte más grande del pastel. Eso también significa poner fin al cofinanciamiento por parte del gobierno de los costes operacionales y exigir a las compañías petroleras que hagan uso del mercado de capitales para suplir el déficit.

Más aún, Tony Chukwueke, jefe del DPR, ha anunciado planes de crear una versión africana de Petronas, la compañía petrolera de propiedad del estado de Malasia, y transformar la añeja Corporación Nacional Nigeriana del Petróleo en una potente empresa petrolífera que pueda dominar el mercado en el Golfo de Guinea y otras regiones emergentes.

Occidente ha ejercido una intensa presión para que Yar’Adua reconsidere el plazo de enero. Su elección está siendo cuestionada ante la justicia por otros candidatos, y el respaldo occidental podría jugar un papel en la estabilización de su gobierno. Sin embargo, sus asesores, algunos de los cuales desempeñaron un papel clave en la política exterior de Nigeria en los años 70, no han dudado en usar el tema de la quema del gas para demostrar la resolución y estatura de Yar’Adua como líder panafricano.

No obstante, al igual que en los años 70, el éxito de la diplomacia nigeriana dependerá de la capacidad del gobierno de lograr legitimidad a nivel nacional. Para ello será necesario reparar y mejorar la infraestructura dañada, generar prosperidad económica, proporcionar servicios sociales eficientes y manejar la agitación en la región del delta. Todavía no está claro si el gobierno de Yar’Adua podrá dar respuesta a estos retos.

Ike Okonta es investigador del Departamento de Política y Relaciones Internacionales de la Universidad de Oxford.

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Bush não leu Maquiavel e usa mercenários. A privatização da guerra é uma ameaça maior do que o terrorismo. Lembrem-se de Robocop!

O negócio da guerra

Alex Fernández

 

A chamada “guerra contra o terrorismo internacional” implementada pela administração de George W. Bush transformou o Afeganistão e o Iraque em laboratórios da guerra moderna de ocupação, colocando em destaque o fenômeno da privatização da guerra. Esta foi colocada em evidência pela participação de empresários privados na gestão bélica direta ou nas chamadas tarefas de reconstrução nas zonas em conflito. Exemplo recente deste último é a situação da empresa de segurança norte-americana Blackwater no Iraque e das multinacionais Total e Chevron na crise recente da Birmânia.
Segundo diversas estimativas, as guerras do Iraque e do Afeganistão alcançaram até o momento um custo Total de US$ 408 bilhões ou, o que é o mesmo, US$ 2.053 dólares por segundo. Isso oferece às empresas não apenas os benefícios do butim dos triunfadores, mas também um campo de investimento e rentabilidade financeira não conhecido no passado bélico dos Estados Unidos. Basta recordar que as guerras anteriores foram muito menos custosas; a Guerra do Golfo, por exemplo, alcançou um custo estimado de apenas US$ 76 bilhões. Para muitos analistas a participação empresarial privada nas guerras norte-americanas se tornou imprescindível na medida em que elas complementam tropas mantidas ali sem condições e a custos políticos consideráveis.
Empresas de segurança ganham terreno
No caso do Iraque, a participação das entidades privadas de segurança permitiu a Washington eludir limitações impostas pelo Congresso.
Em relação ao Afeganistão, os êxitos militares recentes dos talibãs colocaram em discussão a estratégia norte-americana de estabilização aplicada pela OTAN e obrigaram o próprio presidente Hamid Karzai a convidá-los a participar nas tarefas do governo. Frente a esta situação, as empresas de segurança ganharam terreno e substituíram de maneira importante as tarefas dedicadas à reconstrução. Por outra parte, o crescimento espetacular da chamada “economia criminal” (tráfico de drogas) acabou por fortalecer esta tendência. No momento, o Afeganistão é o primeiro exportador mundial de heroína. Além disso, segundo recentes declarações do diretor da Divisão Antidrogas das Nações Unidas em Teerã, Roberto Arbitrio, em 2006 o Afeganistão produziu 6.100 toneladas de ópio cru, se transformando no primeiro produtor e exportador mundial. Na história mundial da droga, somente a China durante o século XIX conseguiu uma produção maior que a do Afeganistão “ liberado do terrorismo internacional”.
Violência e fins de lucro
A guerra do Iraque foi propícia para a participação da área privada em ações militares não regulares, dando lugar ao que se conheceu como a privatização do conflito. Apesar da participação de mercenários nas ações bélicas norte-americanas não ser nova, a sua transformação em empresas gestoras da violência ofensiva ou defensiva com fins de lucro é. Isso criou não só dificuldades jurídicas importantes no direito internacional, como também foi fonte de conflito com o próprio regime iraquiano que, frente ao aumento de vítimas civis, deve assumir uma atitude de rejeição e protesto. Este último pode ser ilustrado com a ameaça de expulsão do país formulada pelo governo iraquiano contra a empresa privada de segurança Blackwater, como resultado de nove vítimas civis provocadas por um obscuro incidente em meados de setembro.
O governo iraquiano não parece contar com capacidade política e jurídica para desalojar de seu território empresas como a Blackwater. Elas constituíram um pilar fundamental na estratégia de ocupação do Iraque e o status jurídico de seus membros é suficientemente vago para resistir a ações legais contra eles.
As entidades privadas norte-americanas que operam nesse país ocupam uns 137 mil civis que assumem os serviços que requerem as ações de 160 mil soldados enviados por Washington. Suas tarefas vão desde o trabalho de tradutores até o combate direto. Os trabalhos militares dos contratados ganharam popularidade e foram estendidas a sul-africanos, latino-americanos e asiáticos, que em muitos casos dividem um obscuro passado político militar por sua vinculação com o terrorismo de Estado implementado por seus países durante a Guerra Fria.
Entre os participantes sul-africanos alcançaram notoriedade os dogs of war , conhecidos desde finais dos anos 70 por sua participação como mercenários na quase Totalidade de golpes de Estado ocorridos na África, e tristemente célebres por participar em guerras civis do Congo, Moçambique, Serra Leoa e Zimbábue. Algo similar representam os gurkas, procedentes do exército inglês. Segundo estimativas do Pentágono e do ministério de relações exteriores norte-americano, as empresas -como Blackwater- que participam da ocupação militar do Iraque receberam desde 2004 contratos acima de US$ 1 bilhão para proteger militarmente os representantes diplomáticos, entre eles o próprio embaixador norte-americano Ryan Crocker.
O status jurídico dos contratos dos mercenários escapa à regulamentação dos direitos de Guerra e Penal, e oferece possibilidades de atividade militar fora de todo controle. Esta situação provém da chamada Order 17 promulgada por Paul Bremen –quando desempenhou o papel de administrador norte-americano no Iraque- e que regulamentou a partir de 2003 as características da ocupação norte-americana outorgando imunidade e impunidade às ações dos entes privados.
Blackwater não é uma das maiores empresas no Iraque, mas é a com vínculos mais estreitos com o governo de Bush. Por isso foi designada por seus críticos como a Guarda Republicana , em associação com o nome das tropas de elite de Sadam Hussein. No passado, muitos de seus dirigentes faziam parte da CIA e do Pentágono; seu pessoal de batalha provém em muitos casos do exército norte-americano e de seus diversos serviços de segurança.
Cabe dizer que a popularidade ganhada pelos mercenários no Iraque provém em grande medida das dificuldades para as tropas regulares e a popularidade dos mercenários não norte-americanos provém da discrição que gera seu desaparecimento em combate.
Atividade apesar das sanções
A violência da junta militar da Birmânia (ou União de Myanmar ) contra os monges budistas e a população civil gerou uma onda de solidariedade internacional. Questionou-se mais ainda a prolongada colaboração com a política econômica da ditadura por parte de transnacionais de energia como a francesa Total (com 95 mil trabalhadores e presença em 130 países) e a norte-americana Chevron (com 62 mil trabalhadores e presença em 180 países).
O próprio presidente Nicolas Sarkozy, acompanhado da teatralidade que lhe é característica, convidou a multinacional francesa no final de setembro a não aumentar seus investimentos na Birmânia e -em um gesto similar ao que fez Bush- se somou às críticas contra a política estratégica de Chevron na Birmânia. Ambas empresas participam da exploração do gás de Yadana, no setor costeiro da Birmânia, e dividem com a Tailândia a propriedade de um gasoduto (31% é da Total, e 28 %, da Chevron) que abastece dito país. A rentabilidade de tais investimentos está calculada em US$ 2 bilhões durante quarenta anos.
Organizações internacionais de direitos humanos –como as norte-americanas Earth Right Internacional e Human Right Watch – denunciaram que tanto a Chevron como a Total significaram não só uma fonte de rendas econômicas ilegais da burocracia militar birmana, como também contribuíram de maneira significativa com a estabilidade econômica do regime ditatorial.
A presença da Chevron na Birmânia não é recente, mas está vinculada à venda das jazidas de gás de Yadana e do gasoduto em direção à Tailândia pertencentes à empresa californiana de energia UNOCAL. Chevron deveu competir com a estatal chinesa China National Offshore Oil Corporation (CNOOC) que estava disposta a pagar um preço muito maior. A indústria norte-americana só conseguiu sua propriedade como resultado das manipulações econômicas, jurídicas e políticas protecionistas que o governo de Bush implementou para impedir a compra por parte da empresa chinesa.
De todas as maneiras, a reputação da Chevron em matéria de direitos humanos na Birmânia não é superior à de sua antecessora UNOCAL.
Esta última teria sido beneficiada pelo desalojamento, deslocamentos obrigados, assassinatos e trabalhos forçados que a população autóctone nos territórios onde se encontram as jazidas de gás e o gasoduto destinado a Tailândia foi submetida. Desde 1996, tanto a Total como a Chevron enfrentaram processos judiciais exigidos por familiares das vítimas desses acontecimentos e em 2004 deveram acordar compensações econômicas. A permanência e os problemas da Chevron na Birmânia continuaram sem mudanças fundamentais inclusive depois de que os Estados Unidos decretaram –pelo menos no papel– sanções econômicas contra a junta militar muito mais radicais que as da União Européia.
Nas escassas declarações oficiais formuladas por dirigentes da Total ou da Chevron, se argumentou que a presença destas empresas na Birmânia se ajusta ao cumprimento estrito da normativa internacional de direitos humanos e às disposições jurídicas de seus respectivos países, que autorizam ou proíbem relações econômicas em zonas em conflito. Executivos da Total que representam a empresa na Birmânia e no Sudão insistem em que se cumpram duas das condições essenciais que as multinacionais francesas devem satisfazer em zonas conflitivas: os investimentos devem respeitar as disposições exigidas pelo Estado francês e não podem contradizer disposições da União Européia nem das Nações Unidas.
Por outro lado, a empresa multinacional deve trabalhar em virtude da aplicação de seu próprio código de conduta referido a direitos humanos, proibição de trabalho forçado, aplicação rigorosa de políticas ambientais e relações laborais compatíveis com as disposições internacionais. Para a Total a situação da Birmânia não tem os extremos do Sudão, onde deveu abandonar o país como resultado da impossibilidade de satisfazer seus próprios códigos de conduta.

Todas as crises financeiras são iguais. E antes de todas elas, os investidores e os governos garantem que tudo vai bem

A Gravidade da Crise Financeira

Paul Krugman

Washington - Até que ponto é maligna? Bom, eu nunca vi pessoas do mundo financeiro se manifestarem assim, nem sequer durante a crise asiática de 1997-98, quando o efeito econômico dominó parecia abranger o mundo inteiro.
Esta vez, os que jogam no mercado parecem verdadeiramente horrorizados, porque se deram conta, repentinamente, de que não são capazes de entender o complexo sistema financeiro que eles mesmos criaram.
Porém, antes de entrar nisso, falemos algo sobre o que está acontecendo agora mesmo.
O crédito –o empréstimo entre jogadores no mercado– é para os mercados financeiros o que o óleo do motor é para a mecânica do automóvel. A capacidade para dispor de dinheiro em espécie a curto prazo, que é o que quer dizer as pessoas quando se fala em "liquidez", é um lubrificante essencial para os mercados e para o conjunto da economia.
Porém, a liquidez se evaporou. Alguns mercados de crédito fecharam efetivamente a janelinha. As taxas de juros em outros mercados –como o mercado de Londres, no qual os bancos emprestam uns para os outros– aumentaram, mesmo quando a taxa de juros da dívida do governo dos Estados Unidos, que ainda se considera segura, caiu rapidamente.
"Estamos assistindo", diz Hill Gross da gestora de bônus Pimco, "em substância, à queda do sistema bancário moderno atual, um complexo de empréstimo alavancado tão difícil de compreender, que o presidente da Reserva Federal, Ben Bernake, precisou de um curso de atualização cara a cara com os gestores dos fundos de produtos financeiros derivados (hedge funds) no meio de agosto".
Se o congelamento dos mercados financeiros se prolongar muito, há de trazer consigo uma grave redução do empréstimo, em geral, o que fará que o investimento empresarial siga o caminho do setor da construção. E isso significa uma recessão, possivelmente grave.
O que se esconde atrás do desaparecimento da liquidez é um colapso da confiança: os jogadores no mercado não querem fazer empréstimos, porque não estão certos de recuperá-los.
Em um sentido direto, esse colapso da confiança causou o estouro da bolha imobiliária. O aumento dos preços da moradia tinha ainda menos sentido que a bolha do pontocom –não havia sequer uma glamorosa tecnologia nova que viesse justificar a caducidade das velhas regras– mas, de uma ou outra forma, os mercados financeiros aceitaram os preços enlouquecidos da moradia como a nova normalidade. E a bolha estourou, uma multidão de investimentos qualificados como AAA se revelaram lixo.
Assim, os títulos dos "superseniors" frente às hipotecas subprime ou de alto risco –investimentos que têm primazia sobre qualquer pagamento de hipoteca que realizem os prestatários, e que supostamente tinham que ser negócio mesmo quando uma parte considerável desses prestatários entrasse em morosidade– perderam uma terceira parte de seu valor de mercado desde julho passado.
Porém, o que realmente debilitou a confiança é o fato de que ninguém sabe onde está enterrado o tóxico financeiro. Supunha-se que Citigrup não tinha dezenas de milhares de milhões de dólares expostos ao subprime; pois tinha. O Florida´s Local overnment Investment Pool, que atua como banco das escolas públicas de distrito, se presumia livre de todo o risco; não estava (e agora, as escolas não têm dinheiro para pagar os professores).
Como foi que as coisas se tornaram tão opacas? A resposta é: "inovação financeira". Duas palavras que, desde já, deveriam disparar o alarme dos investidores.
Está bem, para sermos justos, alguns tipos de inovação financeira estão bem. Eu não quero regressar aos tempos em que as contas correntes não pagavam juros e não se podia tirar dinheiro em espécie nos fins de semana.
Porém, as inovações dos últimos anos –a sopa de letras de CDOs e SIVs, RMBS e ABCP– se venderam com pretensões falsárias. Foram promovidas como formas de dispersar o risco, de fazer mais seguro o investimento. O que, em troca, fizeram –aparte de proporcionar a seus criadores montões de dinheiro, que não tiveram que devolver quando estourou a bolha– foi dispersar a confusão, atrair os investidores para que assumissem riscos maiores do que podiam perceber.
Por que permitiram que isso acontecesse? No fundo, acredito que o problema foi ideológico: os decisores políticos, comprometidos com a opinião de que o mercado sempre faz tudo bem, simplesmente passaram por alto os sinais de alarme. Sabemos, em particular, que Alan Greenspan não deu atenção aos alertas de Edward Gramlich, um membro da Reserva Federal, sobre uma potencial crise das subprime.
E a ortodoxia do livre mercado custa morrer. Há somente umas poucas semanas, Henry Paulson, o Secretário do Tesouro, admitia à revista Fortune que a inovação financeira passou sobre o regulamento, para acrescentar em seguida: "não acredito que tivéssemos que ter seguido outra via". É esta sua última palavra, senhor Secretário?
Agora, a proposta de Paulson para ajudar os prestatários a renegociar os pagamentos de suas hipotecas e evitar o desalojamento soa bem, em principio, (ainda que tenha que esperar ouvir os detalhes). Porém, sendo realistas, não será nada, mas sim um pequeno remendo no problema das subprime.
O principal do assunto é que aqueles que tomam as decisões políticas deixaram a indústria financeira inovar livremente, e o que ela fez foi se inovar a si mesma, nos deixando inseridos em uma confusão tão grave quanto enorme.

A Santa Sé é Estado? Tem interesse nacional?

Liberdade religiosa constitui prioridade da acção diplomática da Santa Sé: recordou D. Dominique Mamberti, Secretário para as Relações com os Estados

A Santa Sé “não tem interesses económicos e políticos, nem ambições estratégicas”, mas com a sua actividade diplomática deseja promover “sempre e por toda a parte, a defesa da liberdade religiosa, como direito primordial e inalienável entre todos os direitos humanos fundamentais": reafirmou-o o arcebispo Dominique Mamberti, Secretário para as Relações com os Estados (espécie de ministro dos Negócios Estrangeiros, do Vaticano), numa Palestra pronunciada na Pontifícia Universidade da Santa Cruz, numa sessão comemorativa do respectivo patrono, S. Raimundo de Penaforte, quinta-feira, 10 de Janeiro. Tema da intervenção: “A protecção do direito à liberdade religiosa na actual actividade da Santa Sé”.
D. Dominique Mamberti observou que “o tema da liberdade religiosa, questão muito vasta, assume grande relevo na actividade da Santa Sé, que dela se ocupa, desde sempre, quotidianamente”. A liberdade de culto é “um direito subjectivo insuprível, inalienável e inviolável”, que dá “uma dimensão privada e pública, individual e institucional”.
O Secretário para as relações com os Estados recordou diversas intervenções da Santa Sé, na ONU, contra a “intolerância e discriminações em relação aos cristãos e aos fiéis de outras religiões” e contra o que classificou como “o estádio mais grave” dos atentados à liberdade religiosa: “as perseguições”. Para a Igreja Católica, a liberdade religiosa “é o direito proeminente de entre todos os outros, e a sua defesa – sublinhou – é o ponto de referência, a prova real, para verificar a tutela de todos os outros direitos: onde floresce a liberdade religiosa, florescem os outros direitos; quando esta está em perigo, vacilam também os outros direitos”.
Cristianofobia, islamofobia e anti-semitismo são expressões da mesma intolerância e constituem outras tantas violações da liberdade religiosa – advertiu D. Mamberti. “Ocorre contrastar dois aspectos característicos das sociedades hodiernas: o desfasamento entre religião e razão, remetendo a primeira para o domínio do sentimento e afastando a religião da esfera pública”.
Sobre a relação entre liberdade religiosa e liberdade de expressão, o Secretário para as Relações com os Estados fez votos de que se alcance uma correcta articulação destas duas formas de liberdade, que salvaguarde uma e outra.
Sobre outra questão fundamental – o diálogo entre religiões e cultura – o prelado observou que este diálogo “só é possível se não se renunciar à verdade”. Na promoção de iniciativas internacionais, neste campo, há que manter sempre viva a consciência de que “as religiões têm características específicas e diferentes”.

http://www.radiovaticana.org/por/Articolo.asp?c=179302

As pessoas mudam? Podemos mudar os outros?

Por incrível que pareça as pessoas mudam. Posso atestar isso. Entretanto, as pessoas não mudam por causa de outras nem mudam simplesmente porque querem mudar. E evidentamente não mudam quando tomam a decisão de mudar. Tenho uma prima que irei chamar de criatura que todo mundo sempre ficava aconselhando a criatura a mudar. Mudar tudo praticamente, não adiantava nada. Uma dia ela começou a dizer que agora tinha mudado, que fazia isso, fazia aquilo, se comportava assim e assado. E veio me falar isso. Ah Corival agora eu mudei. Como todos imaginam, eu respondi com o meu entusiasmo costumeiro: "Nada disso, criatura, vc está falando que mudou, pode estar querendo mudar, mas só daqui uns 10 anos é que a gente vai saber se vc mudou mesmo, se vc tiver mudado, aí eu vou chegar pra vc e dizer nossa criatura, como vc mudou, sem vc precisar dizer nada. Quando vc diz que mudou vc está é querendo mudar a imagem que as pessoas têm de vc, mas não mudou nada ainda." Claro que não foi um grande estímulo para a mudança dela, mas eu disse a verdade. Os dez anos não se passaram e aquels pretensas mudanças não se consolidaram in totum. Houve algumas melhoras, mas com recuos periódicos e a intenção de mudar já não é mais firme. Eu digo que quando conheço alguém não me interesso pelas qualidades, ora é óbvio que se vc olhar para as qualidades da pessoa, vc vai gostar dela. Eu olho para os defeitos, o que me interessa nas pessoas são os seus defeitos, porque para decidir sobre se uma pessoa é boa para ser minha amiga ou não são os defeitos que importam. A pergunta essencial é, gosto da pessoa com esses defeitos? Sou capaz de conviver com esta pessoa com ela mantendo estes defeitos para sempre? É o tipo de defeito que eu suporto? Estes defeitos podem me prejudicar? Ora, pode parecer estranho, mas são as questões importantes, porque em princípio o que atrapalha a relação entre as pessoas são os defeitos que cada uma tem. É preciso ver como os defeitos se encaixam. Se ao conhecer uma pessoa e ao pretender tê-la como amiga, namorada ou o que for o seu pensamento for que para isso a primeira coisa que vc deve fazer é mudá-la, siga em frente, não traga a pessoa para a sua vida, não a atormente criando nela uma necessidade de mudar, um conflito. Porque toda pessoa padece de um grande problema, espera corresponder a expectativa das outras. Então ao tentar mudar alguém vc estará criando um problema para pessoa, criando uma necessidade que ela não identificava, e aí ele nunca vai conseguir atingir nem as suas expectativas nem os dos novos anseios que vc introjetou nela. Os dois serão infelizes. Óbvio, como bom pessimista diria que de todo modo os dois serão infelizes, mas com a demanda por mudança a infelicidade aumenta porque vem acrescentada de inconformismo com o que se é. A mudança que gera frutos e se sustenta é que surge por demanda da própria pessoa, quando ela identifica que mudando pode ficar mais satisfeita consigo mesma, o que não quer dizer que as relações com os outros irão melhorar, ao contrário, em geral se complicam. Toda pessoa que efetivamente muda se sente um estranho no ninho, porque os outros de suas relações continuam esperando as mesmas respostas anteriores. Então mudar é algo difícil e doloroso. Por isso, em geral, as pessoas apenas mudam de fato e rapidamente sob o impacto de circunstâncias externas muito dramática. Um câncer aos 25 anos. Ver o pai ser assassinado. A morte de um filho. As tragédias obrigam as pessoas a assumirem um novo posicionamento frente à vida. Então nestes casos, sempre há mudanças (mesmo que não sejam para melhor). Então as pessoas mudam, e são mudadas pelas tragédias, mas não são mudadas pelas outras. Então quem pensa que deveria tentar mudar alguém, deveria pensar se a o certo não seria mudar a si mesmo para aceitar o outro como ele é. A estrutura mental a qual vc tem acesso é a sua, então é apenas ela que vc pode mudar, em relação aos outros vc pode apenas tornar a vida deles mais miserável tentando mudá-los.

Uma outra prima adolescente veio conversar comigo e disse que pagar um psicólogo era pagar para ter um amigo, então era pra quem não tinha amigos. Aí eu disse para ela: "Nada disso. Uma diferença básica é que o seu amigo vai julgar os seus sentimentos, vai dizer vc não pode sentir isso, sua vida é tão boa, vc deveria era ficar feliz. E se vc continuar sentido as mesmas coisas perde o amigo. O psicólogo, não. O psicólogo é alguém pra quem vc pode dizer que odeia a sua mãe e ele vai considerar isto normal." Ou seja, o amigo não vai te ajudar a mudar, porque ele não te aceita como vc é. O psicólogo contribui para a sua mudança pelo simples fato de te aceitar como vc é, e por reconhecer que qualquer coisa que vc  venha a ser só pode ser construída a partir daquilo que vc é. Pais, amigos, irmãos, namarados, esposos, etc., se partissem desse mesmo pressuposto tornaria a relação muito mais suave e construtiva. Sempre que alguém quer definir o que o outro deve ser a relação é maculada.

A dignidade dos mortos e a cara do Brasil

O Brasil é mesmo um país esquisito. Um país onde avacalha com tudo, nada se respeita, nada se venera, o que significa que não damos importância a nada. Somos uma sociedade profundamente hedonista. E este comportamento ficou patente na tentativa de duas escolas de samba do Rio de Janeiro de transformar o Holocausto em carnaval. É preciso respeitar os mortos. No caso em questão, a justiça atendeu ao pedido da Federação Israelita do Rio de Janeiro e proibiu. O que foi perfeitamente correto. Uma vez que até organizações judaicas no exterior se manifestaram a respeito, e por razões que não vêm ao caso, a mídia brasileira não tratou como censura. Felizmente. Entretanto, deveria se posicionar assim sempre. É inominável o que foi feito com os judeus pelo nazismo, não pelo número de mortos, mas pela razão pela qual estavam sendo exterminados. Do mesmo modo que ocorreu com os ciganos e outros grupos menores. Morreram 20 milhões de russos na Segunda Guerra Mundial, mas morreram porque a guerra é uma tragédia inominável e não porque alguém tivesse um plano de exterminar todos os russos da face da terra. Mas nós não nos chocamos diante do fato, não nos chocamos diante da morte. Não tratamos bem os nossos mortos, não respeitamos os nossos mortos e queremos avacalhar, desprezar também com os mortos dos outros. Não choramos os nossos mortos. A morte no Brasil é apenas estatística, ma fria estatística, contamos o número de mortos, mas não damos significado aos nossos mortos. Os nossos mortos não geram vida, morrem duas vezes porque uma vez enterrados não passam de estatísticas. E por isso, a morte dos judeus não nos choca, não nos toca, olhamos como mais uma grande estatítisca, 6 milhões de mortos e pront. Nenhum vida se tira daí. Os nossos mortos também se contam aos milhões, portanto se formos nos tocar com os mortos dos outros nos lembraremos dos nossos. mas é melhor esquecê-los, é melhor ignorá-los e sempre festejar e contar. Contar os mortos. A nossa sociedade alegre na verdade é uma sociedade triste, incapaz de conviver com a dor, incapaz de assumir a dor e transformar o luto em ação. Os mortos devem ser logo enterrados e esquecidos. Os judeus celebram e choram os seus mortos e dão vida aos seus mortos, porque agem para que a morte deles não se repita. Os árabes celebram os seus mortos e cultivam a sua memória como heróis. Todo sociedade transforma aqueles que morreram lutando contra o seu infortúnio em mártires, em símbolos de vida, em sinais para um próximo começo. Não temos mártires, temos apenas mortos e estatísticas. Contamos os mortos, somos bons nisso. E depois rimos deles. E depois os transformamos em carnaval, em dinheiro, em nada. Num país cheio de heróis, a morte deles aparece apenas como números para que não tenhamos que mudar nossas vidas, para não termos que assumir a responsabilidade pelo país. Ora a mesma indignação que a comunidade judaica sentiu com a carnavalização do holocausto, deveríamos sentir com a carnavalização do extermínio dos índios, com a carnavalização da pobreza, com a carnavalização da violência. Deveríamos dar um sentido à morte do nosso povo, mas fazemos dela apenas uma estatística. Subiu, caiu. E continuamos não tendo nada com isso. Cada um que chore os seus mortos e supere logo, porque logo chegue a hora de rir do morto, se divertir com a morte dos outros. O pior do Brasil é a ausência de valores, levamos o relativismo a um extremo inaceitável, aqui nada provoca escadânlo, por mais absurdo que seja o ato, nada provoca escândalo. O que tem retratar campos de concentração no carnaval? O que tem escarnecer da dor e do sofrimento do outro? Já passou, é só história velha. O que importa brincar com o massacre dos turcos sobre os armênios?  A morte é tão presente nas nossas vidas que nos tornamos indiferentes a ela, não nos mobilizamos, apenas proferismos algumas palavras contra o governo de turno e assumimos que fizemos a nossa parte. Isto é inaceitável, é uma barreira a transformação do país. precisamos recuperar valores e abandonar o relativismo sob pena de sermos destruídos por ela, uma sociedade que aceita tudo não consegue anter os laços de solidariedade social. A solidariedade social só se conserva sob uma base de valores sólidos que são partilhados pela maioria e defendidos por ela. Aí mesmo uma guerra, mesmo o holocausto é incapaz de destruir esse povo. No nosso caso parece que já aceitamos o nosso destino, então o que resta é festejar enquanto ainda estamos por aqui, enquanto não nos tornamos apenas mais uma estatística.

Voltei!

Voltei, mas sem inspiração para escrever. Então depois de uma retirada do mundo retornei sem muita inspiração para escrever no blog. Acho que se abateu sobre mim o mesmo espírito que pousou sobre meus alunos e os impediram de ir à faculdade esta semana. Como é horrível ir para a faculdade e ela estar vazia. Prefiro ficar na faculdade ouvindo lenga-lenga sobre notas do que ficar lá sem um aluno para perturbar. Espero que o rei Momo traga os alunos de volta sãos e salvos ao menos a partir do dia 11.